quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Exposição | Joaquim dos Santos: Compositor | expositor 7

Expositor 7 

Para começar, devo dizer com toda a verdade e justiça: se não tivesse entrado para o Seminário, penso que nunca teria seguido música [Joaquim dos Santos in Diário do Minho, suplemento da edição n.º 27849, 1 de Agosto de 2007].

Joaquim dos Santos, expoente da música sacra do século XX em Portugal, começou as suas experiências como compositor, ainda bem cedo, enquanto aluno do Seminário Menor. Nesta Instituição recebeu as primeiras lições de alguns dos mestres em música sacra proeminentes da época destacando-se a figura do insigne Manuel Faria. Nas palavras de D. Joaquim Gonçalves […] havia um grupo restrito de alunos que reunia frequentemente com o Dr. Faria […] neste grupo, facilmente se verificará, Joaquim dos Santos ocupou um lugar de destaque. Desses jovens teólogos candidatos a compositores, falava-se de Joaquim Santos como o discípulo mais fiel ao mestre e também como o aluno que o mestre gostava de referir.

Sobre o início da sua dedicação à música, Joaquim dos Santos afirmou: Quem está no início de toda esta minha caminhada no mundo da música é, sem dúvida, o Cónego Dr. Manuel Faria. Sei até que esta minha afirmação não é surpresa para ninguém, o que seria surpresa era se eu me atrevesse a dizer que a sua influência se limitaria a esse arranque inicial! [Joaquim dos Santos in Diário do Minho].

Os primeiros esboços musicais das pautas do jovem Joaquim dos Santos foram acompanhados de perto por Manuel Faria. O resultado deste acompanhamento está presente nos cânticos de juventude onde ressaltam algumas anotações e correcções da mão do mestre e onde o aluno anota no final de cada partitura visto pelo Dr. Faria.

Este acompanhamento de proximidade e orientação (mestre/discípulo) reflectiu-se no conhecimento de algumas das obras mais importantes de compositores do século XX que viriam a influenciar os seus princípios de composição. Manuel Faria apresentou a Joaquim dos Santos, através de inúmeras partituras, as obras de grandes compositores como Maurice Ravel, Igor Stravinsky, Oliver Messiaen, Benjamin Britten. A experiência musical de Joaquim dos Santos levou-o a encontrar-se com a música de outros nomes cimeiros como Frank Martin (aconselhado pelo maestro Ernest Ansermet) Penderecki em que a admiração pela sua obra está patente na Passio et mors NSJC secundum Lucam de Joaquim Santos. Nos últimos anos, Joaquim dos Santos viu também com especial interesse a obra de Godofreddo Petrassi. Contudo, a sua linguagem musical será sempre marcada pelo seu Mestre e Amigo - Manuel Faria.

A sua estadia em Itália ficou marcada, não só pelos ensinamentos de outro grande Mestre e um grande Amigo, Armando Renzi, que sempre o acompanhou no trabalho de cada dia, mas também pelo esforço de se manter actualizado em relação à música que se ia produzindo: Durante a minha estadia de 6 anos na Cidade Eterna, procurei estar sempre ao corrente do que se ia publicando, em partituras ou discos, e fui adquirindo um bom número desse material que sempre considerei e considero muitíssimo precioso para mim [Joaquim dos Santos in Diário do Minho].

Os laços com a cidade de Roma ficaram ainda mais estreitos com a sua ligação ao Instituto Português de Santo António em Roma (IPSAR), no ano 2000, que muito contribuiu para a divulgação e reconhecimento da obra de Joaquim dos Santos, estabelecendo-se uma nova fase na vida do compositor.

O seu prestígio como compositor tem ultrapassado fronteiras, sendo que muitas vezes, o seu reconhecimento em Itália manifesta-se mais claramente do que em Portugal com um número de estreias e de gravações de composições suas declaradamente maior. O compositor afirmou com uma certa amargura que Bem gostaria que a frase que por aí anda – “o que é nacional é bom” – se aplicasse também ao mundo da arte musical! [Joaquim dos Santos in Diário do Minho].

Este percurso na sua vida deu origem a uma vasta obra, quer religiosa quer profana, que abrange vários géneros, estilos, e formações instrumentais. O próprio compositor descreve a sua obra como Um pouco de serialismo, atonalismo (sobretudo na música de câmara) e ritmos brilhantes e fogosos [in SIMÕES, Carla, Joaquim dos Santos, um Compositor no Panorama Musical Português contemporâneo, Instituto de Estudos da Criança, Universidade do Minho, Abril de 2000], afirmando mesmo que não tem a menor dúvida de que a [minha] linguagem musical está actualizada [Joaquim dos Santos in Diário do Minho].

Das muitas obras que lhe eram solicitadas, quer por instituições quer por particulares, muitas foram as que se executaram com êxito e foram aplaudidas pelo público, embora haja também um bom número que não chegaram a ser executadas em vida do compositor.

Desde a música Sacra à música popular, passando pela música orquestral, coral sinfónica, de câmara e solista, todas evidenciam a excelência de um compositor do nosso tempo que escrevia com toda a sua alma, entregando um pouco de si próprio a cada nova criação: Numas e noutras me encontro, algo de mim próprio ali está… [Joaquim dos Santos in Diário do Minho].

A última obra que compôs data de 19 de Junho de 2008, Prelúdio e Fuga com Coral, para órgão, deixando-a terminada mas ainda em rascunho. A última composição sua a que assistiu foi a Paixão segundo S. João, interpretada pelo Coral de Chaves, com os solistas Liliana Coelho (Narradora), Bruno Nogueira (Sinagoga), José Carlos Miranda (Jesus), em Sambade (Alfandega da Fé) a 14 de Junho de 2008.

Na sua mesa de trabalho, e segundo informações de Nuno Costa, responsável pelo espólio de Joaquim dos Santos, o compositor deixou inacabada a composição de uma Missa para dois solistas, coro, órgão e orquestra.

Ana Rita Campos e Sónia Marques, alunas do 2º ano da Licenciatura em Música.