quarta-feira, 17 de setembro de 2008

para ouvir... "O ratinho malcriado" - violino, viola e harpa

interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco), Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

O ratinho malcriado é outra das várias canções populares recolhidas e trabalhadas por Joaquim dos Santos (cerca de meia centena). Esta canção, tal como a anterior publicada no blog, sofreu vários arranjos, estando a presente versão, também, incluída na colectânea Quatro Canções Populares Portuguesas para violino, viola e harpa (2003).

Mais uma vez se publica a nota introdutória da colectânea das canções populares... "Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003".

Não desfazendo dos ímpares vultos que deram a conhecer este grande património, nem sequer se tenta uma comparação, fica aqui registada, outra vez, a ideia que nem só do insigne Fernando Lopes-Graça viveu e vive a Canção Popular Portuguesa...

Para ouvir da mesma colecção:

Debaixo da Oliveira; Espadeladas; O tia Aninhas

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dr. Joaquim dos Santos: a música no coração...

O Dr. Joaquim Gonçalves dos Santos é quase um ilustre desconhecido em Cabeceiras de Basto, não obstante as suas múltiplas actividades e ser um mestre, um expoente nacional em composição musical, canto gregoriano e ‘mais umas coisitas’.
Nasceu em Vilela, freguesia de Riodouro, a 13 de Abril de 1936, segundo filho do casal, o pai da Casa da Casinha de Moimenta – Cavês e a mãe da Casa do Torno, de Vilela.
Desde os cinco, seis meses, viveu em Moimenta, onde criou as suas raízes, onde frequentou a escola primária, recordando ainda as suas professoras e nomeadamente a da quarta classe, a D. Aninhas de Rabiçais – Moimenta (D. Ana Barroso de Carvalho). Concluído o ensino primário fez a admissão ao Seminário de Braga, onde ingressou em 1950 e aí permaneceu até 1962, ‘sem perder nenhum ano’ e abraçar a vida sacerdotal.
Da escola primária recorda com emoção as diferenças sociais existentes, já que, ‘sendo filho de lavradores, vivia bem para essa altura’. Recorda ainda o dia em que andando ‘à bulha, junto ao cruzeiro (muito bonito), com um colega, zombei dele’ e tendo-o magoado ficou ‘cheio de pena, nem sequer imaginam, porque ele era pobre e eu se calhar era rico…’
A paixão pela música começou em pequenino. O pai, seguindo o exemplo, também de seu pai, que tocava flauta na Banda Cabeceirense, dedicava-se à harmónica e à guitarra e cantava um ‘solidó qualquer, um fadozinho, e eu e a minha irmã ficávamos a ouvi-lo. A música entrava em nós…, era linda…, linda!...’
Aquando da primeira comunhão, que recorda com ‘saudade e carinho’, ouviu pela primeira vez um organista com atenção. Era uma ‘harmonia tão linda, tão linda: «Meu Deus eu creio, adoro e amo-vos!»
Porém, a sua vocação musical só terá verdadeiro sentido quando entrou para o Seminário e pela mão do grande compositor e músico, o Dr. Manuel Faria, iniciou uma carreira cheia de êxitos e de recordações.
Dele disse o Dr. Manuel Faria: ‘Aquele rapaz tem caco!’
Assim o demonstrou ao longo da sua vida.
Escolheu a vida eclesiástica. Teve as suas dúvidas, ‘não haverá ninguém que não tenha dúvidas, mas fiz a minha opção’.
Foi ordenado sacerdote na Sé de Braga, em 15 de Agosto de 1962 e, ao contrário do que é habitual, celebrou Missa Nova em Fátima.
A Missa Nova ‘é uma festa muito grande, com muitos convidados, com muitas prendas, mas não quis assim. Tinha a obrigação de fazer qualquer coisa de diferente. Sem nada disso. Tinha de agradecer a Nossa Senhora de Fátima que me marcou intensamente’.
Mais, o que é e fez deve ‘absolutamente tudo ao Seminário e aos excelentes professores’ que teve.
Depois de ordenado, ingressou no Seminário de Santiago, em Braga, como professor de música, tendo no ano seguinte, ido para Roma, o marco da sua vida, por indicação do seu mestre Dr. Manuel Faria, para se doutorar em música.
Foram seis anos inesquecíveis. ‘Não se passa um dia da minha vida que eu não recorde o tempo que lá passei.’
Aí se doutorou em composição musical, em canto gregoriano e ‘mais umas coisitas’. Sempre com a sua simplicidade, o seu entusiasmo, o seu estudo e trabalho, levaram-no a frequentar o Conservatório de Santa Cecília, em Roma, que é o melhor do mundo, e até obteve um prémio num concurso alemão.
Um dos grandes marcos da sua estadia em Roma foi ter o privilégio de conhecer pessoalmente o compositor Igor Stravinsky, primeiro num concerto na ‘Igreja linda de Santa Maria Sopra Minerva, no centro velhinho de Roma’ e mais tarde, conjuntamente com o Papa Paulo VI, tendo-lhe então oferecido um livro seu e feito uma dedicatória.
Regressado a Portugal, continuou a sua missão de professor, no Colégio S. Miguel de Refojos e na Escola Preparatória, hoje Escola EB 2.3 de Cabeceiras.
Sente-se ‘realizado ao tratar com crianças, embora seja um pouco antigo na forma de ensinar, mas actualizado no ensino da música’. Lamenta, porém, a falta ‘de muitas coisas, não corre tudo como gostaríamos. As crianças têm muitos vícios, têm grande dependência das coisas da televisão, coisas sem sentido’.
Aqui, o Dr. Santos refere que gosta de ‘toda a música, da música boa, da que tem qualidade’. Porém, ‘há tanta música que não é música nenhuma…, mas nenhuma é uma massinha. Não é mais nada. Barulho…só ruído’…
Paralelamente às actividades docentes, o Dr. Santos dedicou-se ainda ao Grupo de S. Miguel, à Banda Cabeceirense e ao seu Grupo Coral, para além da composição e dos concertos que tem escrito e realizado um pouco por todo o lado.
Lamenta, com a sua simplicidade, ‘não consigo calar nem disfarçar’, não poder tocar mais, mas ‘falta dinheiro e poderes, para haver concertos mais vezes, já que um concerto custa muito dinheiro e empenho’.
Do Grupo Coral ficou uma cassete gravada e a recordação dos muitos concertos e actuações realizadas. Da Banda, onde entrou ‘pela mão do Sr. Jaiminho da Freira’, refere que é ‘uma família com os músicos,… grandes músicos com quem gostei de trabalhar’. Refere ainda o trabalho realizado com o coral da Banda, a partir de um grupo de ‘meia dúzia a cantar e a tocar nas missas’.
Fazendo um balanço da vida, diz: ‘ A vida é feita de tudo. Momentos com muitas palmas e até raminhos de flores, outras com coisas que não foram conseguidas. Se calhar mais baixos que altos.’
A escolha do Dr. Santos, quanto às personagens que o marcaram, não podiam deixar de ser músicos, mas também seus professores: Dr. Manuel Faria, em Portugal e Armando Rensi, em Itália, aquele de que diz: ‘Quem me deu tudo.’
Por fim refere que hoje ‘há facilidade tão grande, tão grande, de ouvir música, basta carregar num botão’. É preciso ‘é ter qualidade’. Mas o mais importante é ‘fazer música por si, num teclado, numas cordas, ser eu que toco’.
Com ‘o botãozinho não tem valor, o mérito e valor está na felicidade muito grande de quem a faz, de quem a vive, de quem a sofre’.
‘A música tem de ser sofrida, ser a própria vida.’
Por isso recomenda que a ‘música seja feita pela nossa juventude’, porque ‘no comércio da música o ganho é para os outros’.
E conclui: ‘Só o que é feito por nós nos dá mais alegria e felicidade’.

Paulo Ramos, Tozé Moura e Mário Leite. Jornal Fórum Cabeceirense, 1 de Julho de 1997

terça-feira, 9 de setembro de 2008

para ouvir... "Debaixo da Oliveira" - violino, viola e harpa




interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco) e Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

Debaixo da Oliveira é uma de várias canções populares recolhidas e trabalhadas por Joaquim dos Santos (cerca de meia centena). Esta canção sofreu vários arranjos, estando a presente versão incluída na colectânea Quatro Canções Populares Portuguesas para violino, viola e harpa (2003). Na habitual nota que acompanha grande parte das suas composições, Joaquim dos Santos, escreveu: "Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003". Antes desta versão, Joaquim dos Santos compôs outra para flauta e harpa.

Não desfazendo dos ímpares vultos que deram a conhecer este grande património guardado há séculos por um povo de trabalho e suor, nem sequer se tenta uma comparação, fica aqui registada a ideia que nem só do insigne Fernando Lopes-Graça viveu e vive a Canção Popular Portuguesa...

Para ouvir da mesma colecção:

O ratinho malcriado; Espadeladas; O tia Aninhas

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Da minha parte muito obrigado II - sinopse do texto e excertos musicais da obra.


Travessia
Oratório em quatro quadros distribuídos por duas partes
2005

Joaquim dos Santos música
D. Joaquim Gonçalves texto

A Travessia é uma evocação cristã de Trás-as-Montes e Alto Douro, mormente da área diocesana de Vila Real, e, simultaneamente, uma reflexão sobre os desafios culturais da sociedade actual.
A primeira ideia deste texto nasceu durante a preparação das Bodas de Diamante da Diocese celebradas em 1997. Ao programar os actos festivos daquela data jubilar, sentiu-­se a necessidade de algo que sublinhasse a relação vital da Diocese com a geografia e a história de Trás-os-Montes e assim ajudasse a compreender que uma Diocese é mais que um centro de administração eclesiástica, é a própria comunidade local em marcha, com os seus encantos naturais, as tradições do seu povo, os problemas e desafios sociais de cada época, tudo assumido pelo Espírito de Cristo numa síntese de vida. Na verdade, a Igreja não passa ao lado do mundo, mas faz suas as alegrias e as tristezas da sociedade humana, sofre as oscilações sociais da mesma comunidade, assume e purifica a cultura local, e é a qualidade desse intercâmbio da fé com a cultura e as estruturas sociais, as expressões artísticas e a liturgia que define o estado de adultez da fé e da Igreja. É por isso se diz que a mesma e única Igreja de Cristo tem em cada diocese a cor do seu povo e forma, no conjunto das dio­ceses, um arco-íris sobre o mundo.
Daquele objectivo nasceu um texto – a Travessia, que faz a evocação de Trás-os-Montes como um “novo Israel em marcha pelos montes”, tendo subjacente o esquema bíblico do Êxodo. A viagem dos antigos Hebreus fez-se através do deserto e, simultaneamente, no íntimo das pessoas, gerando nelas a consciência de Povo de Deus que não tinham ao sair do Egipto. Foi uma viagem exterior e interior, social e religiosa, a caminhada de um Povo em construção. É desse género o percurso de uma diocese: uma comunidade com dimensão interior e exterior, espiritual e com reflexos sociais. De resto, como diz António Quadros, só há viagem por dentro das pessoas, por fora há deslocação.
Da narração do Êxodo extraíram-se quatro quadros capazes de exprimir a nossa história: a distribuição das tribos, onde vão desenhadas as mini-regiões locais e alguns traços da sua identidade cultural; as tentações do deserto ou a evocação das mudanças sociais e passagem da vida rural para a nova sensibilidade urbana; os frutos da terra prometida, um apontamento sobre as belezas e os recursos naturais; e, finalmente, a despedida de Moisés e a passagem do Jordão, ou seja, os desafios lançados pela cultura tecnicista e secularizante do novo milénio.
O texto primitivo da Travessia tinha a forma de um simples auto e destinava-se a ser recitado em actividades juvenis no ano de 1997, mas a escassez de tempo não permitiu a sua utilização pastoral. A passagem do milénio e a “Carta do Papa aos Artistas” na Páscoa de 1999, a lembrar que a pastoral deve tentar as expressões artísticas porque a beleza é o rosto atraente da verdade, aconselharam a remodelação do texto primitivo, dando-lhe uma nova feição destinada a outro público. Mantém o nome e o plano ao estimado compositor e a alegria por ver o “Reino Maravilhoso” transfigurado, a cantar.
(…)

A Travessia transmontana vem a fazer-se há séculos, englobando geografia, economia, cultura e religião. O “Egipto” donde partimos é a austeridade do clima e a limitação dos recursos naturais da nossa terra. Mas esta terra é também a “terra prometida” na medida em que é aqui que temos de vencer.
Esta Travessia transmontana é símbolo de outras travessias sociais e culturais, sempre subjacentes ao texto

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A distribuição das Tribos
1º quadro

A nossa "Distribuição das tribos" aparece logo no início da viagem como lugar de partida e de chegada, um facto da natureza e uma missão histórica. As “tribos” correspondem às actuais oito zonas pastorais da Diocese acrescidas do Seminário e fazem memória da multiplicidade dos vários povos que desde há séculos viveram dispersos por estes montes. Lembram-se “os velhos castras, povos e vezeiras” e os nomes de alguns povos pré-romanos “a quem foram dados montes e ribeiras”, briosamente assumidos como um “testa­mento” e “dote” das origens.
Os nomes de alguns desses povos estão gravados numa coluna encontrada no rio Tâmega, em Chaves, e guardada no respectivo museu, conhecida como «Padrão dos povos». Ci­tam-se aqui os Equaesi e os Turodi, que terão vivido desde o Gerês (dos dois lados da actual fronteira) até Vila Pouca de Aguiar; os Tamagani, nas margens do Tâmega (em terra es­panhola ainda hoje há os topónimos “tamagos” e “tamaguelos”); e os Calecci, desde o litoral, ou ao menos desde o rio Ave, até ao Marão.
Alude-se também à posterior romanização de Trás-os-Montes, de que há muitos sinais, nomeadamente em Chaves, em Jales e no lugar de Panoias. Na reorganização romana do território o rio Douro foi limite norte da Lusitânia. Na época medieval, a antiga “terra de Panóias” era um centro adminis­trativo muito vasto, estendendo-se desde o Marão até ao Tua.
Dos velhos cultos pagãos praticados em Trás-os-Montes há referências ao javali (berrões), a reva (deus das trovoadas), a deuses orientais (no santuário pagão de Panoias) e a serpentes (pitões) no castro da paróquia de S. Tomé do Castelo, em S. Miguel da Pena e noutros lugares.
A fé cristã chegou muito cedo a estas terras, como atestam a diocese histórica de Aquae Flaviae ou Chaves com o seu único bispo Idácio, no séc.V. A Diocese de Vila Real só foi criada em 1922. Nessa data, o actual território diocesano estava distribuído pelas dioceses de Braga, Lamego e Bragança. Embora já fosse um distrito civil, ainda não constituía uma igreja diocesana, “não era um Povo”. Desde 1922 tem a uni-lo o vínculo diocesano e tomou-se um “novo Israel em marcha pelos montes”. Todo o passado é assumido pelo presente, rumo ao futuro.

As tentações do deserto
2º quadro

O quadro das “Tentações do deserto” alude à mudança gradual dos costumes em Trás-os-Montes e em toda a Sociedade actual, a passagem da vida rural para o estilo de vida urbana, a “descida do monte às terras de Moab”. Essa mudança social constitui uma grande prova civilizacional e provoca em muita gente um doloroso lamento entre a austeridade e pacatez do passado, simbolizado no rio Nilo, e o medo do futuro, expresso no rio Jordão.Mas a tentação mais subtil da actualidade vem da nova cultura, a idolatria de um progresso reduzido à economia e á vida no mundo e desinteressado dos valores eternos: “acabe a paz do Sinai”, “passaram as codornizes, a fome e sede e maná”, “dançai, ó povos, dançai”, “depois, depois se verá”. Nessa perspectiva, “Despe-se do futuro o Povo da Promessa”, o sonho da Terra prometida, e “Morrem no presente o sonho e a Travessia”. O sonho “além Jordão” cede ao mundo “aquém Jordão”, às “terras de Moab”, um mundo sem transcendência, tema que será retomado no IV quadro.

Os frutos da terra prometida
3º quadro

Este quadro dos «Frutos da Terra prometida» é uma síntese das riquezas e belezas naturais de Trás-os-Montes e Alto Douro, desde Montalegre ao rio Douro, tema que se prolongará no IV quadro.
Faz-se também uma alusão à cultura literária e científica e artística de vários filhos do Douro e Trás-os-Montes, referindo discretamente dois autores desta região, já falecidos: Miguel Torga, de quem se transcrevem algumas expressões por ele criadas para caracterizar a terra transmontana ou «Reino Maravilhoso» (in Portugal), e João de Araújo Correia, referindo o título de um livro – “Montes pintados” –, alusivo ao Douro.

Despedida de Moisés e passagem do Jordão
4º quadro (2ª parte)

Este é o quadro síntese de toda a Travessia, o mais longo. A "Despedida de Moisés e a Passagem do rio Jordão", acto central na história do Êxodo, são o pretexto para falar da nova cultura e da inserção na Comunidade Europeia, entendidas por muitos como a súmula de todos os bens, mas, na verdade, carregada de interrogações acerca dos valores da vida humana, da família e da sociedade!
Após a passagem bíblica do Jordão e a entrada na Terra prometida tudo parecia ser fácil e foi, afinal, uma "nova travessia". A cultura da modernidade e a globalização criaram uma nova terra de Canaã, onde toda a sociedade faz uma nova travessia, sofre novas tentações e requer novos profetas que a advirtam com novas maldições e bênçãos.

Maldições:
Apresentam-se como novas tentações a instabilidade da família natural, a quebra do diálogo no seio da família e a sedução da vida nocturna, as várias ameaças à vida humana, a anarquia e desvios da sexualidade, o abandono das terras e a emigração forçada “havendo mais terra para ver que para semear”, o isolamento das regiões do interior, a fuga de capitais, a internacionalização do comércio com invasão de produtos estrangeiros e afastamento dos produtos locais, as carências sociais mormente na área da saúde, a quebra da natalidade, a droga e a exploração económica, a alteração dos hábitos alimentares, a urbanização especulativa e sem critérios humanos e artísticos, a perda da memória cristã e a presença das seitas e movimentos esotéricos.

Bênçãos:
Em contrapartida, afirmam-se como novas bênçãos o despertar da consciência da cidadania e interesse pelo bem comum, a vocação dos leigos nas escolas, na arte, nos hospitais e sectores de turismo, a importância da formação escolar, a chegada das novas estradas, a sensibilidade à ecologia e mesmo ao carácter icónico da natureza, a maturidade dos emigrantes, a frugalidade do povo e o sentido do essencial, a consciência do valor da vida, a estima pelo património da arte cristã (citam-se oito títulos marianos de outros tantos santuários), a luz da fé como clarificadora do passado e do futuro e a força da família na transmissão desses valores: “Haveis de transmitir este encanto aos filhos dos vossos filhos”.

Conclusão
É fácil de compreender que toda a vida, pessoal e social, se pode verter nesse esquema cultural: a vida é uma longa travessia do berço até à eternidade ou Terra Prometida que está sempre para além de qualquer Jordão; o Egipto e o faraó são o símbolo das limitações naturais e do mal radical donde é preciso sair continuamente; o rio Nilo é o símbolo da “fartura dos escravos” ou vida sem dignidade; o deserto é o espaço da liberdade, o lugar e o tempo da aprendizagem do exercício da responsabilidade; as tentações do deserto são todos os esquemas de vida e pensamento que afastam da viagem, quer refugiando-se no passado (a saudade das «cebolas do Egipto»), quer instalando-se no comodismo e prazeres do mundo presente, a planície de um mundo sem transcendência (“ficar em Moab”, “aquém Jordão”, “deixar morrer no presente o sonho do futuro”); baal é o símbolo típico da sensualidade pagã e da economia absolutizada; “passar além Jordão” é o salto permanente em ordem à realização do projecto divino da pessoa e da comunidade.
A Travessia, pela linguagem fortemente simbólica, per­mite uma leitura da vida da Diocese e dos dinamismos so­ciais. Haja em vista a referência às pontes para a união das tribos e à estrada "real " para Jerusalém: quando se escreveu o texto original elas figuravam como uma bênção do futuro, e já aí estão concretizadas na A 7 e A24 e melhoria do IP4.
Para uma leitura mais reflectida fazem-se algumas cita­ções bíblicas no texto, acrescidas de algumas outras, mor­mente das “maldições” e “bênçãos”, e que podem constituir um frutuoso exercício cultural.

D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real

Os excertos dos registos sonoros, aqui apresentados, foram realizados no concerto de Vila Real, no dia 22 de Outubro de 2006 e no concerto de Roma, no dia 30 de Abril de 2007. Foram intérpretes a soprano Inês Villadelprat e o tenor Fernando Guimarães, o Coral de Chaves sob a direcção do Maestro Fernando Silva de Matos, a Orquestra do Norte sob a direcção do Maestro José Ferreira Lobo e a Orchestra Tiberina sob a direcção de Massimo Scapin. Registos sonoros efectuados pelo Seminário de Vila Real (em Portugal) e o Engenheiro de som Antonio Cenciarelli (em Itália)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Da minha parte, muito obrigado... (*) - D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real

Maestro Joaquim dos Santos com o Bispo D. Joaquim Gonçalves (texto),
na igreja nacional de S. António em Roma momentos antes da
estreia de "Noiva do Marão", cantata para soprano, tenor, coro e orquestra.
(9 de Dezembro de 2000)


Pedem-me um depoimento sobre o Pe. Dr. Joaquim Gonçalves dos Santos e sobre o Oratório “Travessia”, para ser incluído numa saudação cultural ao conhecido compositor de Cabeceiras de Basto.
É uma tarefa delicada, esta de alguém, que não é versado na arte musical, falar de um amigo cuja vida se identifica com a sua obra de compositor. Por isso, mais do que uma reflexão sobre o seu estilo de compositor, o meu comentário faz a evocação de um contemporâneo do Seminário, testemunha a gratidão de um bispo pelas atenções recebidas e pelo contributo dado à diocese, e manifesta a estima por um ministério difícil.
Tendo ambos frequentado os Seminários de Braga em anos próximos mas diferentes e muito numerosos; não me foi proporcionado aquele convívio rotineiro que permite fazer a radiografia dos anos de juventude, e, após a ordenação, o ministério pastoral separou-nos ainda mais: a mim, levou-me para a zona litoral da Póvoa de Varzim; a ele, para o trabalho de educador no Seminário de Filosofia, avançando depois para a formação académica e artística em Roma. Ficou a unir-nos o convívio de algumas aulas comuns nos últimos anos do Seminário Maior, a conversa nos recreios e a estima pela música e composição musical, já conhecida no tempo do Seminário e desenvolvida pela vida fora.
Nos anos de Teologia a todos os alunos era exigido o estudo rigoroso das matérias teológicas, alguma cultura musical e o exercício fundamental do canto, mas, naquelas horas que todos arranjamos para os nossos amores culturais, enquanto uns farejavam uma revista de teologia que completasse a reflexão oficial ou as obras mais significativas da literatura cristã contemporânea ou mesmo os pincéis para tentar o sonho de uma tela, outros davam ao orfeão o brilho das suas vozes pacientemente treinadas em exercícios de naipes e prolongavam no harmónio o sonho de futuros ensaiadores de grupos corais nas paróquias. Havia ainda um grupo restrito de alunos que reunia frequentemente com o Dr. Faria para se iniciarem nos segredos da composição musical. Eram os “devotos da batuta”, como dizíamos com amizade académica. O Joaquim Santos fazia parte desse grupo reduzido de seminaristas que discretamente atravessavam os corredores acompanhados de pautas musicais rabiscadas a negro e encarnado.
A maioria dos alunos do Seminário gostava da música, de toda a música: tocada e cantada pelo orfeão em festas solenes ou pela assembleia dos alunos nos actos do culto diário, incluindo o canto religioso popular, predominante nas peregrinações da multidão a caminho do Sameiro e do Bom Jesus. Por isso, apreciávamos e admirávamos a coragem e a perseverança do grupo dos jovens “devotos”, e o aparecimento de algum colega compositor enchia-nos de orgulho. Mas entrar naquele laboratório da música e captar o “vento” que sopra onde quer e gravá-lo em pautas complicadas, com riscos e rabiscos, afigurava-se-nos uma aventura mais cansativa que ser cozinheiro no acampamento dos escuteiros em dias de vento.
Desses jovens teólogos candidatos a compositores, falava-se do Joaquim Santos como o “discípulo mais fiel ao mestre” e também como “o aluno que o mestre gostava de referir”, e, um pouco diluída, essa fama ainda hoje se mantém. Unia-os uma paixão inata pela música onde transparece a sensibilidade do povo do Minho e o que eu chamaria a liberdade criadora dentro dos cânones clássicos com algum gosto pela surpresa, e separava-os uma grande diferença temperamental: enquanto o Dr. Faria era um comunicador camiliano, um espírito aberto e folgazão, o Dr. Joaquim Santos tem sempre o ar contido de um órgão de catedral com todos os registos a funcionar e que, de vez em quando, desabrocha em concertos solenes. Como fazia o Dr. Faria, o Dr. Santos surpreende às vezes pela subtileza na exploração de uma palavra do texto, até de uma sílaba, pelo relevo dado a um instrumento ou a uma voz, a lembrar o voo solto de uma águia na amplidão do céu, que, mais à frente, cumprida a tarefa de revelar a beleza das alturas, volta a integrar-se jubilosa na constelação das outras aves.

Desde que vim para Vila Real, notei que as músicas do Dr. Joaquim Santos transpareciam na actuação de alguns coros da área do Tâmega, vizinha de Cavez: em Cerva, em Ribeira de Pena, em Mondim de Basto e mesmo em Chaves.
Pessoalmente confiei-lhe três textos não litúrgicos. Entregar um texto a um músico é uma experiência única, talvez semelhante ao gesto de um pai que entrega um corte de fazenda ao alfaiate para que dele talhe o fato para o casamento do filho. Esse gesto tem um ar de aventura porque, tendo custado grossa maquia, aquele tecido ficará marcado pelo corte do alfaiate, pelos botões e outros auxiliares de alfaiataria e será isso que, para bem e para mal, a sociedade recordará daquela fazenda.
Dessa encomenda repetida, a primeira alegria veio sempre da pontualidade e da limpeza da apresentação da obra, sem atraso nem rasuras, brochada e até encadernada. Tudo ali está minuciosamente descrito: a partitura geral com a divisão do texto pelas notas musicais respectivas, os acidentes musicais, a sugestão do ritmo e a distribuição em cadernos para a orquestra, os solistas e do coro. A segunda alegria veio da execução musical que fez sentir a suavidade e a força da composição, com algumas surpresas artísticas a fazerem apelo ao coração e à cabeça.
Duas daqueles obras seriam unicamente executadas em Roma por artistas estrangeiros, e esses textos foram algo martirizados pela pronúncia dos artistas, mas o tema aparece sempre conduzido por um fio de ouro que lhes dá unidade, engenhosamente distribuído pelos solistas e pelo coro e concluído em coral solene. A “Travessia” foi cantada somente por artistas portugueses.

O texto da TRAVESSIA é-me particularmente querido, pois nele vai a tentativa de traduzir em arte o tombo geográfico, histórico, teológico e pastoral da região transmontana que forma a diocese que Deus me confiou, imersa numa subtil mudança sócio-cultural, comum a todas as outras dioceses, o qual pode ser um exemplo da tentativa de evangelização da sociedade moderna através da arte. Sei que esta minha estima por esta obra é plenamente partilhada pelo Dr. Santos que nela se revê como síntese do seu percurso artístico. Alguém até me confidenciou que ele se emocionara ao compor determinadas passagens.
Quando o Dr. Santos me entregou a partitura da TRAVESSIA em dois grandes volumes belamente encadernados com um total de 628 páginas de pautas escritas à mão, tive o sentimento de receber das mãos de um copista medieval o antifonário de um mosteiro histórico. À noite fui ao harmónio da capela da casa episcopal e tentei cheirar o perfume que sobe dos “corais”, pois havia-lhe pedido que, ao compor a TRAVESSIA, ao menos os “corais” fossem cantáveis pelo povo transmontano. Algo pressenti.
Depois foi o trabalho de encontrar meios humanos e financeiros para a execução: a orquestra, os solistas e o coro. Para orquestra vali-me do contrato que algumas Câmaras Municipais têm com a Orquestra do Norte, e para Coro era ponto assente que devia ser constituído por gente da diocese, a fim de que, ao menos, um grupo de pessoas da terra aproveitasse artisticamente e ficasse a cantar e a sentir a mensagem da Travessia. Sempre me doeu ver pagar concertos a artistas que, no final, tudo levam consigo – o dinheiro e o exercício artístico. Assumiu aquela tarefa o Coral de Chaves com cerca de quarenta elementos, um número reduzido para o caso, mas cheio de brio e coragem. Tudo se conseguiu.
A angariação de meios financeiros para a execução da TRAVESSIA fez-me lembrar o que nos confidenciava o Dr. Faria acerca do drama dos compositores musicais: enquanto os outros artistas, um arquitecto por exemplo, vêem depressa conhecida a sua obra e colhem o fruto do seu trabalho, o compositor corre o perigo de ver a sua obra fechada a sete chaves nos arquivos e morrer pobre, pois a revelação da obra musical requer grande investimento financeiro e este ainda parece “inútil” a muita gente. Compreendi também a razão por que o Dr. Joaquim Santos corria a todos os lugares onde se executava alguma obra sua: não era a vaidade vulgar (ficaria escondido na sua cadeira se não o fossem arrancar ao seu recolhimento para dizer umas palavras de circunstância), era antes o desejo de ver à luz do dia o fruto do seu amor, como um pai extasiado ao ver o filho dançar.
A execução da TRAVESSIA constituiu uma série de espectáculos, gradualmente mais gratificantes, em Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Chaves, Alijó, Valpaços, e novamente em Vila Real. O primeiro ensaio do Coral com a Orquestra e Solistas em Vila Real foi acompanhado pelo Dr. Santos em silêncio doloroso e o primeiro concerto não correu bem porque o maestro (não era o titular) e alguns artistas facilitaram na apreciação do texto musical e tiveram de estudar a partitura. Com a crescente interiorização tomaram-se claros o dinamismo e a subtileza que, na aparente facilidade, percorrem toda a obra e que desabrocharam no concerto na Sé de Vila Real. O maestro M. Ivo Cruz, que assistiu na Sé a esse concerto integral na celebração do meu jubileu das bodas de prata episcopais em Outubro de 2006 (era já o sétimo concerto realizado na diocese), confidenciou-me que era uma obra notável, digna de ser cantada em Lisboa, e admirava-se de haver em Chaves um coro capaz daquela ousadia.
Recordando a minha reacção aos primeiros concertos, vem-me ao pensamento a história do fato de que falei há pouco. Eu conhecia bem o texto que escrevera, o seu corpo e a sua alma, e, ao ouvi-lo cantar, algumas passagens musicais pareciam transcrição dos sentimentos que me acompanharam na redacção do texto, mas outras como algum cromatismo e os recursos artísticos modernos, a barreira de fortes acordes instrumentais a separar os vários núcleos das “maldições” e das “bênçãos” – causavam-me surpresa, assemelhando-se a botões mal ajustados.
Afinal, nada está fora do lugar. A meu lado, tenho agora a girar o duplo CD do concerto dado em Roma, e, escutando-o de fio a pavio, é nítida a sequência de toda a obra, sem repetições cansativas, a cadência andante do povo que marcha pelo deserto, a interligação do narrativo e do dramático, do lírico e do heróico, a sedução dos corais que apetece cantar no fim do 1° quadro (Do rio Douro ao alto da fronteira), no meio do 2° (Do rio Nilo ao Jordão), e na apoteose final (Havemos de transmitir este encanto aos filhos dos nossos filhos).
Também aprendi do Dr. Santos que a distribuição de partes da mesma frase pelos dois solistas e os compassos tocados em exclusivo pela orquestra têm finalidades estéticas mas, por vezes, destinam-se também a dar aos solistas algum descanso para poderem aguentar o canto de passagens mais exigentes. Verifiquei assim que, além da arte da composição, o Dr. Santos tem presente o realismo da execução.
Um aspecto me agrada especialmente no tecido musical da TRAVESSIA: a atenção ao texto, quase a cada palavra, a criação de pequenas unidades musicais dentro de cada quadro, mormente no 4°, mantendo sempre os sinais discretos de marcha. Quando se escreveu no 1° quadro o texto de cada uma das nove tribos, e no 4° as “maldições” e “bênçãos” em forma salmódica, desejava-se facilitar ao compositor o respectivo trabalho pela simples repetição musical das frases. O seu esforço, porém, vai ao ponto de criar música para cada um desses textos, como faz o poeta ao ajustar ao ouvido um búzio do mar que quer ouvir, neste caso o “mar de pedras” de Trás-os-Montes.
São ainda exemplares dessa escuta do texto, as músicas que vestem as premonições de Moisés sobre a “nova travessia além Jordão”, a descrição da nova paisagem cultural de “Canaã”, os “profetas novos desse mundo novo” (os leigos), os santuários marianos, o bruxedo, a proclamação das “maldições e bênçãos” agrupadas em núcleos musicais distintos para evitar a monotonia.
Daquela necessidade de o compositor escutar o texto, seja sagrado ou profano, falou-nos muitas vezes o Dr. Faria. No caso do Dr. Joaquim Santos, a capacidade de captar o “canto obscuro” do texto talvez ande associada ao treino de quem conhece o canto gregoriano, onde a música saboreia um texto latino sem o triturar nem marginalizar, e à sensibilidade de quem reside na fronteira do Minho e Trás-os-Montes.
A verdade é que, quanto mais se ouve a TRAVESSIA, mais transparente se toma essa aliança do corpo do noivo e do corte do fato, do texto e da música.
Da minha parte, muito obrigado.

Vila Real, 13 de Outubro de 2007
Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real




(*) Nota: Este texto foi escrito no Verão de 2007 para ser incluído numa evocação cultural do Dr. Joaquim dos Santos.
Entretanto, desde o Outubro seguinte até Março deste ano, andei pelos hospitais fora da diocese para fazer um transplante cardíaco e suspendi todo o contacto com amigos comuns. Informei oportunamente o Dr. Joaquim Santos do êxito do transplante feito em Janeiro, e, regressado à Diocese na Páscoa deste ano, encontrei-o radiante no Seminário de Vila Real onde ele vinha frequentemente para ajudar na formação de jovens e adultos.
Nos meses imediatos, chega inesperadamente a notícia fria da sua ida para o hospital por causa de uma anomalia cardíaca que diziam não ser grave, e, no dia de S. João, quando eu regressava de Coimbra de fazer uma consulta de rotina e me preparava para, nessa noite, assistir com ele no Teatro de Vila Real a um concerto em favor do novo órgão de tubos da igreja de Santo António dos Portugueses em Roma, corre a notícia seca da sua morte!
O concerto realizou-se sem qualquer referência ao acontecimento, ainda que todos soubessem. No final, o pianista Nuno Pereira, que veio de Colónia (Alemanha) dar o concerto e desejava ver pessoalmente o rosto do compositor cuja obra já conhecia em grande parte, era um jovem desolado: havia incluído no programa do concerto o “Prologus”, uma peça do Dr. Joaquim dos Santos para piano com “seis impressões musicais sobre o Evangelho de S. João” e, paradoxalmente, tocara-a no dia da morte do seu autor sem nunca poder ver o seu rosto vivo!
Deste modo, o texto que eu havia escrito para uma homenagem em vida adquire agora a solenidade e transparência da morte do Dr. Joaquim Santos. Reli o texto nesse dia e é publicado depois do seu funeral. Mantém a forma original da redacção, inclusive o tempo presente dos verbos, o tempo da vida em acto.
Não é um elogio fúnebre, embora tenha, a partir de hoje, ressonâncias de grande saudade e da distância que a eternidade provoca mesmo em quem tem fé. À mensagem objectiva do texto da Travessia, acrescenta-se inevitavelmente a conexão das circunstâncias pessoais da “travessia” do compositor: a sua gratidão pelo facto de ter nascido numa família do campo onde a música ocupava lugar de relevo (seu pai e avô paterno tocavam guitarra, flauta transversal e harmónica) e que transparecerá na bênção das famílias que "juntam na mesma tenda as crianças e os velhos porque sentem que os dois são arcos da mesma ponte”; a dedicação ao seu inesquecível professor de música no Seminário cuja fotografia tinha no seu gabinete de trabalho aflorada na bênção dos que “choram a morte dos amigos para além dos trinta dias porque o seu peito não é um mar morto e a vida está para além da vida”; a sua morte, pressentida na “noite que descera sobre os olhos de Moisés” mas que “não descera sobre a alma do profeta”, que, “cheio da alegria da madrugada pascal”, ouve “à distância hinos na Terra amada”.
Por isso, nunca mais ouvirei do mesmo modo cantar a premonição de Moisés na despedida do povo no Jordão: “vais entrar, Israel, na terra além Jordão”, nem o intróito da orquestra ao capítulo das “bênçãos” a anunciar o misticismo da “nova travessia” que ele fora buscar à melodia popular do canto das almas na Quaresma. Esse recurso fará memória da sua atenção à alma cristã do povo das duas margens do Tâmega e abrirá um pouco o segredo do tom misterioso e suave das suas composições.
Algumas condições da morte do Dr. Joaquim Santos fazem-me acudir ao coração as mortes do Dr. Faria, seu mestre (que visitei no hospital de Santo António, Porto, durante a última doença), de Mons. José Fernandes da Silva, seu colega de composição (com quem durante anos confrontei aflições de doenças mútuas e suas diferenças), e do próprio Dr. Joaquim Santos, vítima de uma crise cardíaca no ano em que me felicitou pelo transplante do coração! Todos eles me parecem homens precocemente gastos pelo moinho da criação artística que rodopiava noite e dia em seus corações e lhes travou a disponibilidade para cuidarem da saúde.
S. João registou no seu Evangelho (7,37) que, “no último dia, o mais solene da festa, Jesus dizia à multidão que rios de água viva brotariam do peito daqueles que cressem n' Ele”. O dia do funeral do Dr. J. Santos foi o último dia da festa da vida que ele orientou sempre para o Criador. Nesse dia, que será o sétimo ou o oitavo, sinto-o plenamente associado no céu ao coro dos outros Santos e compositores que beberam da mesma fonte da beleza – o Espírito de Jesus Cristo.

Vila Real, 25 de Junho de 2008, dia do seu funeral em Cavez.
Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real