terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Inauguração do Novo Órgão do Instituto de Santo António dos Portugueses | Fotos



Neste blog foram dedicados dois artigos ao novo órgão do Instituto de Santo António. Quando foram escritos não havia nenhuma foto disponível...

Para fechar o ano de 2008 fica a publicação destas fotografias onde figura um instrumento que promete estar voltado para o futuro...da música e dos órgãos!



Um obrigado a todos que, durante este meio ano, seguiram o blog dedicado à memória do Padre Compositor Joaquim Gonçalves dos Santos.

Que 2009 traga boas novidades e acontecimentos para a música em Portugal...

[fotos de G. Luna - gentilmente cedidas pelo IPSAR]

Ver na Agenda IPSAR

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um dia sagrado | Dia de Natal | Música para a Liturgia


Dia que fica registado neste blog dedicado a um homem com um sentido de religiosidade extremamente acentuado, um Amigo que nunca negou o Amor a Cristo e que colocava a sua alma de Sacerdote em tudo o que fazia, particularmente na Música que compôs.

Um dia sagrado brilhou sobre nós.
Vinde, ó povos adorar o Senhor,
porque uma grande luz desceu sobre a terra.

Exultam de alegria os povos da terra, porque o Senhor vem salvar-nos. Aleluia.

O Senhor é rei: exulte a terra,
rejubile a multidão das ilhas.
Ao seu redor, nuvens e trevas,
a justiça e o direito são a base do seu trono.

Os seus relâmpagos iluminam o mundo,
a terra vê-os e estremece.
Os céus proclamam a sua justiça
e todos os povos contemplam sua glória.


Obra litúrgica, própria do Natal, publicada no ano de 1988 na edição número 47 da Nova Revista de Música Sacra.
Dividida em três partes, esta obra é destinada à liturgia. Com uma antífona de efeito extremamente brilhante e anunciativo, a música, está envolvida numa majestade constante com auge no refrão, que deve ser cantado por toda a Assembleia. Por sua vez, o carácter contemplativo das estrofes dá força e contraste a este, aparentemente, simples cântico para a liturgia...

XVIII Encontro de Música Antiga de Rio Longo (2008); interpretação do grupo vocal Ançã-ble.


domingo, 21 de dezembro de 2008

"Esperando o Natal da Música" | Joaquim dos Santos

Há cerca de um ano a Agência Ecclesia publicou no seu site um artigo do Maestro.

Muito sugestivo...
(11.12.2007)

"Chegou-me às mãos uma entrevista de duas grandes personalidades (o Monsenhor Franco Ravasi e o grande Maestro Riccardo Muti da orquestra La Scala de Milão), focando especialmente a música de Natal e tecendo profundas considerações sobre o seu carácter, a sua finalidade, etc.
Começo por recordar uma frase de Cassiodoro aí citada “se cometerdes injustiça Deus deixar-vos-á sem música”, e cujo comentário aí expresso diz que em parte isso vai acontecendo quando a música se torna ruído - este é já um castigo. Se da música em geral passarmos à música sacra - natalícia ou outra - que deve ser oração, serenidade contemplativa e beleza, se nesta houver algo de contraditório ao acima exposto, então passamos inexoravelmente à aplicação daquela famosa frase “corruptio optimi, pessimum.”
Num escrito recente de há oito dias apenas (2 de Dezembro de 2007) a escritora brasileira Adélia Prado defende o resgate da beleza na celebração da liturgia como uma necessidade vital, afirmando que “a Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”.
Se ao menos de enfeites se tratasse, comento eu, não estaria assim tão mal, mas imperam fortemente os “desenfeites”, enchendo o espaço sagrado e a liturgia de vulgaridades e mau gosto, ruídos e palminhas a Jesus, textos e melodias banais, em resumo: invasão do espaço sagrado e da liturgia com letras feias, músicas feias, comportamentos e gestos vulgares e mesmo ridículos…
Não é por falta de leis ou comissões, sejam elas litúrgicas ou musicais, que a pureza, elevação e dignidade das celebrações são assim tratadas, mas porque as normas referidas não se aplicam, e também porque as pessoas responsáveis e directamente intervenientes neste processo se deixam levar por um excesso de zelo pastoral mal esclarecido ou imbuído, quem sabe, pelo receio de serem consideradas desactualizadas. Por isso, e não só, proliferam as publicações de muita música sem o mínimo de qualidade nos textos e melodias que não levam as pessoas a rezar. A propósito e em síntese, registo esta frase de lamento e humor: “em algumas celebrações saímos da Igreja com vontade de procurar um lugar para rezar”. É indispensável redescobrir o canto-oração, o silêncio e a serenidade contemplativa, é urgente restaurar e enriquecer o culto daquilo que é essencial à sua própria natureza: a dignidade, a santidade e a beleza, pois estamos perante os mistérios mais sublimes e daí todo o nosso empenho, respeito e amor pelas coisas santas que devem ser tratadas santamente. Ocorre-me de novo aquela frase atrás citada:” a Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”.
É o absolutamente novo e sempre actual. É a Incarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do próprio Cristo. É o Amor de Deus no meio de nós, “construindo a sua casa no meio das nossas casas”.
É o Deus invisível que se torna visível aos nossos olhos. Vêem-no Maria e José, os Pastores e os Magos (agora que recordamos o seu nascimento). Viram-no aqueles cujas melodias nos legaram e permanecem entre nós. Vejam-no hoje todos quantos, através da linguagem poética e musical, têm a missão de O manifestar. Vejamo-lO também nós com os olhos puros da fé."

Joaquim dos Santos,
Compositor


http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=54011&seccaoid=8&tipoid=183

[foto de G. Luna - gentilmente cedida pelo IPSAR]

domingo, 14 de dezembro de 2008

Novo Órgão do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma

Foi no passado Domingo que, em Santo António dos Portugueses, foi inaugurado o novo e moderno Órgão construído pela Casa Mascioni. Órgão voltado para o futuro, órgão que respeita a tradição.

O Concerto inaugural foi da responsabilidade do grande Mestre Jean Guillou.
Que dia memorável, que momento de indescritível grandeza. O Mundo, sem o saber, ficou muito mais rico.
Começou com a Celebração Eucarística presidida pelo Mons. Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontificio Consiglio della Cultura, que proferiu uma bela homilia, proferiu palavras de exaltação à Música, nas suas variadas formas, palavras de exaltação à Música que é feita para Deus.
Pormenor simples, mas de grande efeito meditativo, foi o de, até à bênção do instrumento, a celebração ter sido sustentada apenas pela voz humana, a cappella. Depois da homilia, a bênção do órgão chegou e finalmente a nova voz fez-se ouvir! Eis que essa voz invade toda a igreja de Santo António, um som, uma voz que parecia estar dentro de nós... J.S. Bach, nem outro compositor poderia ser, J.S. Bach brota nos primeiros sons para uma assembleia cada vez mais entusiasta e emocionada. Do Prelúdio & Fuga em Ré Maior, ouviu-se o brilhante Prelúdio executado pelo Maestro Jean Guillou... Nasceu assim para o mundo o Órgão do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, Instituto que sempre acolheu o nosso Maestro Joaquim dos Santos, instituição que merece todas as referências por parte de todos que amam a Música, a Pintura, a Literatura, as Artes e também aos que têm Amor à Igreja e a Cristo.
Para a parte da tarde estava reservado outro momento de enorme relevo, não apenas musical (em particular) mas sobretudo cultural (em geral). Na igreja não poderiam entrar mais pessoas, estava completamente cheia, completamente cheia...
Ao fundo, em frente ao altar-mor, estava agora posicionada a consola do órgão de forma que todos os presentes pudessem contemplar o vulto da História da Música que, nos momentos que se iriam seguir, iria estar ali presente.
Mais uma vez a abertura é exclusiva à música de Bach, Prelúdio & Fuga em mi menor BWV 548; começava assim um concerto onde a exaltação do órgão e do seu som foi uma constante. As obras que se seguiram foram dos portugueses Frei Jacinto e Carlos Seixas e com estas obras o Maestro Jean Guillou demonstrou o quão rico instrumento é. Quem melhor que o seu projectista para nos mostrar algumas das potencialidades do órgão Mascioni do IPSAR. A exploração de sonoridades que o instrumento permite foi uma constante nas obras dos portugueses, em particular a exploração de sonoridades que faziam ouvir um órgão ibérico, que riqueza, que imaginação teve o Mestre Jean Guillou.
Um dos momentos altos do concerto foi sem dúvida a obra "Sagues", do próprio organista. Não obstante o virtuosismo de Jean Guillou na apresentação das mesmas, a mestria com que combinou os vários registos fez com que todos presentes vibrassem e ficassem completamente surpreendidos com as "Sagues" e com a grandiosa e majestosa orquestra que acabava de assaltar a igreja. Indescritível sentimento foi aquele que o som provocou.
Corale III de César Franck integrou um momento de particular beleza, a harmonia, em todos e quaisquer sentidos, no seu total esplendor... No final, não fosse esquecermo-nos que estávamos perante um dos maiores Mestres de Improvisação da História da Música, Jean Guillou ofereceu a todos um momento totalmente revestido de brilho e, uma vez mais, de beleza.

De forma extremamente sucinta, foi assim que aconteceu no passado dia 7 de Dezembro de 2008 em Santo António dos Portugueses. Dia inesquecível que tive sorte de viver. Dia que sempre animou os projectos do nosso Maestro Joaquim dos Santos; com certeza que viveu todas as emoções da inauguração no Céu, junto dos seus amigos e mais queridos.


Nuno Costa

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Há um ano foi assim...dia 5 de Dezembro de 2007...

"Hoje, na igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, é apresentado em estreia o Concerto para violoncelo e orquestra do padre-compositor bracarense Joaquim Santos.
É solista um violoncelista italiano com uma orquestra romana, dirigida pelo maestro Massimo Scapin.
Por altura da Imaculada Conceição, que se celebra a 8 deste mês, o Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma promove desde há alguns anos um concerto. Obras de J. Santos têm sido uma presença regular. Junho, mês de Santo António, é outro momento escolhido por esta instituição para idênticas iniciativas.
J. Santos já apresentou lá várias dezenas de obras onde se incluem um Concerto para piano e Orquestra. Soube pelo autor, que lá se encontra, que uma das melodias que aparece pertence aos martírios que são de Braga.
Por ironia do tempo hoje celebra-se na Roma Portuguesa a festa dos padroeiros Martinho de Dume, Frutuoso e Geraldo. Como seria bom poder ouvir aqui o que na Roma Eterna hoje se ouvirá. Mas Braga parece não querer reconhecer atempadamente o que, por pressão das circunstâncias, virá a reconhecer: se algo temos a dar é a produção cultural original e única.
Tudo o mais talvez não passe de uma importação acrítica de padrões globalizados. Espero que venha o dia em que os verdadeiros artistas sejam tidos em conta e as verdadeiras obras de arte ocupem o lugar devido na programação dos responsáveis.
Entretanto vamos vivendo na expectativa de advento, da chegada dessa hora." (Agência Ecclesia)
[foto de G. Luna - gentilmente cedida pelo IPSAR]

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domingo, 30 de novembro de 2008

Novo Órgão Mascioni de Santo António dos Portugueses






No próximo domingo, dia 7 de Dezembro, será inaugurado o novo e moderno Órgão da Igreja do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma. A construtora do mesmo é a conceituada casa Mascioni, do norte de Itália, com mais de 1100 órgãos construídos desde 1829 estando alguns dos seus exemplares nas mais prestigiadas igrejas e salas de espectáculo do mundo.

A inauguração do novo e moderno Órgão será feita pelo seu projectista e nada pouco famoso: Jean Guillou, grande organista francês, titular de Santo Eustáquio em Paris, amado por uns, contestado por outros com pouco alcance visionário, discípulo do enorme Olivier Messiaen bem como de Marcel Dupré e Maurice Duruflé. Assim sendo, por volta das 17h do próximo domingo, o Maestro Jean Guillou, fará acordar o colossal instrumento que nasceu em pleno coração de Roma na Igreja dos Portugueses.

Com certeza que nada disto aconteceria se não fosse o trabalho incansável do Reitor do importante Instituto, pólo ímpar na divulgação de Portugal em Itália, o Monsenhor Agostinho da Costa Borges.

A ligação que o Maestro Joaquim dos Santos teve e continua a ter ao Instituto de Santo António dos Portugueses justifica a publicação de qualquer mensagem sobre o mesmo.

www.ipsar.org

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Dr. Joaquim Santos apresenta obras em Roma

Assim continua a publicação dos artigos da imprensa regional de Basto dedicados ao Padre e Maestro Joaquim dos Santos. Páginas singelas duma importância singular que nos ajudam a perceber o Joaquim dos Santos que se toca nos locais remotos do nosso país; páginas que nos apresentam o Joaquim dos Santos que constantemente "viajava" de terra em terra e voltava à "sua" cidade de Roma para aí também ver, ouvir e sentir a execução das suas obras, desde a mais simples e natural à mais grandiosa e complexa das suas criações.

"Três obras de autoria do Padre Joaquim Santos foram apresentadas, uma vez mais, em Roma mais precisamente na Igreja de Santo António dos Portugueses, no passado dia 23 de Fevereiro [2008].

Tratou-se da primeira audição de Servite Domino in Laetitita, com o subtítulo de Impressões Bíblicas para Piano. Segundo informação divulgada, o compositor parte de três salmos [1, 99 e 132] e elabora uma espécie de interpretação musical dos textos bíblicos. Esta obra, assinada em Fevereiro de 2007, nasceram em Vila Real, quando após terminar um concerto do seu Oratório Travessia, o amigo Giampaolo di Rosa, professor da Universidade do Porto, lhe pediu para escrever, para piano, algo de carácter religioso que gostaria de apresentar nos seus concertos. Assim, nascem estas notas musicais, simples e despretensiosas da sua leitura sobre os três Salmos agora apresentados e envoltos de uma «mensagem de amor e alegria nesta nossa peregrinação pelos Caminhos de Cristo», referiu o compositor ao Jornal Diário do Minho.
A segunda obra é Quatro Poemas Indianos para voz (canto e recitação), violino, dois clarinetes, dois saxofones e piano. Poemas estes, que parecem sublinhar todo o sentido transcendente de uma «amorosa mensagem de uma remota terra»…«não fui privado do toque do Homem Supremo – acolhi no meu coração a sua eterna mensagem, e me grata recordação me conforto pelos dons recebidos do Senhor da Vida», referiu. Os quatro poemas têm como título: O Mundo nasceu da Grande Alegria, A Luz dos dias sem número, Recebi nesta vida o dom do Belo e Diante se estende o oceano da Paz.
A terceira obra é um Capriccio para violino e piano. Os executantes são: as vozes de duas cantoras, uma argentina mas de origem síria, Nora Tabbush e a outra italiana, Llaria Patassini. O violinista é russo [Yakov Marr]. Vítor Matos (das Taipas) toca clarinete, Domingos Castro (de Braga) toca clarinete baixo, Luís Ribeiro (das Taipas) toca os saxofones. A acompanhar no piano, Ângelo Martingo, do Porto. Além desta, três obras foram também executadas, uma inédita para violino e clarinete [de Yakov Marr] e a Sonata nº1 para clarinete e piano [de Brahms].
As obras do compositor Joaquim Santos evocam outras já executadas. O diálogo inter-religioso, servido pela música, abre-se das três religiões monoteístas às religiões não reveladas como é o hinduísmo, mas que contém, como diz o Concílio, sementes do Verbo, do Lógos, o que não causa estranheza a Luís Esteves que em artigo publicado no Diário do Minho, refere a obra musical do Padre Joaquim Santos como «um verdadeiro tesouro»."

www.ecosdebasto.com/noticia.asp?idEdicao=119&id=3911&idSeccao=1115&Action=noticia

No presente blog há um artigo dedicado ao CD que foi, seguidamente, editado com este concerto. www.maestrojoaquimdossantos.blogspot.com/2008/08/musica-ispirata-e-ricercata-per-il.html
[foto de G. Luna - gentilmente cedida pelo IPSAR]

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Grupo Vocal Ançã-ble em Concerto...

O ANÇÃBLE, constituído por uma família da Ançã (de onde retira o nome pelo qual se designa num jogo de palavras que dispensa explicações), é um conjunto vocal que se tem dedicado à música sacra portuguesa, com natural incidência sobre o período áureo (séc. XVI - XVII ) - segundo uma classificação comumente aceite - da música vocal em Portugal.

No dia 7 de Dezembro (sábado) o Grupo Vocal Ançã-ble apresenta-se em concerto no Senhor da Cruz - Barcelos. Entre outras obras, serão apresentados Três Motetes para coro misto e órgão, próprios do Tempo de Advento/Natal, do Maestro Joaquim dos Santos; são eles Um dia sagrado brilhou sobre nós (Dies Sanctificatus Illuxit Nobis); Hoje sobre nos resplandece uma luz (Hodie Illuxi Nobis); Na Terra o Verbo se fez carne.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Prologus | Ana Telles | Recital de Piano

Foi ontem, em Lamego, o Recital da Pianista Ana Telles...
Bach, Liszt, Joaquim dos Santos e Messiaen – “Programa exclusivamente composto por obras de compositores cujo sentido da religiosidade foi muito pronunciado.”


O Concerto abriu com o Prelúdio Coral BWV 639, "Ich ruf' zu dir, Herr Jesu Christ", que rapidamente capturou toda a sala; se alguém tinha dúvidas que estava ali para assistir a um belo recital de piano, em três minutos apenas, pode sentir que a música de Bach chegou e prendeu os sentidos de quem ouviu a profunda e bonita interpretação de Ana Telles.

Logo de seguida invadiu-nos o virtuoso Franz Liszt… Quem esperava o virtuosismo de uma Rapsódia Húngara ou de um Estudo Transcendental, como no meu caso, enganou-se! “Predicação de São Francisco às Aves”, obra muito menos conhecida e divulgada, aliás, como grande parte da obra sacra deste compositor (se bem que não se deve confundir esta obra para piano com qualquer outra dita sacra ou litúrgica!). Ana Telles apresentou-nos uma obra que nos mostra a “faceta mística ou religiosa, católica em particular” de Franz Liszt, “faceta essa que o levou, no final da sua vida, a tomar ordens menores”. Desta obra sobressaiu o “canto” dos pássaros que constantemente “chilrearam” na parte mais aguda do piano e ouviram S. Francisco que lhes falou aquando da entrada de um tema mais forte na mão esquerda e na parte mais grave do piano!... Não sei se forço uma ligação mas, no meu entender, o facto da pianista ter um vínculo tão estreito à música do compositor que transpôs para o piano o canto das aves (Messiaen), possibilitou que, através da sua interpretação deste Liszt, tivéssemos uma percepção muito clara da obra em si, da beleza que a Religião e a Natureza dão constantemente à “inspiração” dos Compositores ao longo da História da Música.

Seguiu-se o Prologus… Obra do Maestro Joaquim dos Santos em seis pequenos andamentos “inspirada” no Evangelho de São João, com dedicatória à Pianista Ana Telles. Prólogo que incentivou a minha viagem a Lamego; queira ouvi-la e senti-la ao vivo… Falar da obra que ouvi ontem à noite significa muito mais do que aquilo que consigo colocar em palavras. Para quem o conheceu sabe que ouvir uma obra sua é sentir a alegria e energia que tinha a sua vida, é sentir a sua presença nos sons que brotam de um instrumento...ontem foi o piano, mas podia ser qualquer outro, e nesse outro ouvir-se-ia igualmente a força, vigor, devoção, sensibilidade, inteligência, majestade e mesmo o seu humor muito característico…
Fazendo jus à confiança depositada pelo Maestro, Ana Telles invadiu instantaneamente a sala com os acordes cheios de força e vigor que abrem o Prologus e prosseguiu sempre na exploração dos pormenores que apenas se encontram quando se estuda a partitura a fundo e que à primeira vista parece não figurarem na mesma… Seis andamentos, seis momentos que não consigo descrever, pois cada um evoca o Mestre e Amigo que tanto nos honrou com a sua amizade e dedicação…Joaquim dos Santos…

A terminar…a música de Messiaen! Com certeza que também conquistou quem, porventura, não conhecia a obra deste genial compositor. Sem meias medidas devo confessar que fiquei seduzido e deslumbrado com a interpretação de Ana Telles. Que clareza! Que brilho! Que majestade! “Première communion de la Virge” e “Nöel”, dois andamentos da grande obra para piano “Vingt Regards sur L’Enfant Jésus” maravilharam todos quantos estavam presentes, sem sombra de dúvida.
Assim terminou um óptimo recital na lindíssima cidade de Lamego…que bom!

Um aparte para terminar: expresso aqui a minha total admiração e louvor à programação do Teatro Ribeiro Conceição. Fiquei absolutamente fascinado com o que vi na programação do mesmo. Não é imensa, o local também não permite, mas variada e apostada em levar ao Teatro experiências peculiares. Só de pensar que vai ser apresentada, nesse teatro, uma ópera de João Arroyo que teve imenso sucesso no inicio do século XX, foi traduzida para inglês para ser apresentada, com sucesso, em Inglaterra, foi leva para a Alemanha, com igual sucesso nas récitas, e que de um momento para o outro deixa de ser tocada e fica cerca de 90 anos na gaveta até que neste Teatro da cidade de Lamego aparece na programação...a mim, sinceramente, deixa-me extremamente satisfeito...
Bem-haja.

sábado, 15 de novembro de 2008

NRMS 128 | IN MEMORIAM | Padre Joaquim Gonçalves dos Santos

No final do passado mês de Outubro saiu o número 128 da Nova Revista de Música Sacra. Número IN MEMORIAM do colaborador habitual – Padre Joaquim Gonçalves dos Santos.

Um IN MEMORIAM que não merece mais de meia página...

Meia página para quem dedicou mais de 30 anos à NRMS e à Comissão de Música Sacra de Braga.

Meia página sem o acompanhamento de uma única partitura de “J. Santos” porque “todos os cânticos que escreveu para a NRMS foram publicados.”
“todos os cânticos que escreveu para a NRMS foram publicados.”…!?
Quando regressou à Arquidiocese em 1968, o Padre Joaquim Gonçalves dos Santos, não trabalhou interinamente (provisoriamente) no Seminário e no Instituto Superior de Teologia; trabalhou até 1987…trabalhou até, por motivos pessoais, deixar de leccionar nos mesmos…

É quase impressionante ver como tratam a obra do Maestro Joaquim dos Santos…

Nuno Costa

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Dr. Joaquim Santos apresenta Fantasia Conventual...

Há cerca de um ano assim aconteceu...
No dia 10 de Novembro no Mosteiro de Tibães... Uma Fantasia Conventual foi executada num Convento...

"O Cabeceirense Dr. Joaquim Santos, promoveu no dia 10 de Novembro, no Mosteiro de S. Martinho de Tibães, em Braga um belo concerto intitulado Fantasia Conventual. Uma iniciativa da Junta de Freguesia que com a colaboração da Paróquia, do Museu e da Universidade do Minho, através do IEC e da Orquestra de Câmara do Minho, apresentou em estreia absoluta uma breve mas intensa obra do Dr. Joaquim Santos. Uma obra para instrumentos de sopro com dois incisos de canto gregoriano Parce Domine e Rorate coeli, interpretados pela soprano Magna Ferreira num diálogo bem conseguido com um ensemble de sopros e percussão, sob a batuta do maestro Vítor Matos. Segundo opiniões divulgadas, a linguagem da obra é ousada e imaginativa como toda a criação do Dr. Joaquim Santos. A obra é tripartida, uma introdução, um desenvolvimento como se de uma meditação monástica se tratasse e um coral instrumental onde se inserem os dois referidos incisos gregorianos. O concerto inclui ainda a serenata em Dó menor de Mozart e uma curiosa criação In Principio para sopros e soprano, em seis andamentos do jovem Luís Cardoso. A fantasia Conventual, apresentada na véspera da celebração de S. Martinho, inscreve-se num horizonte de diaconia monástica, já que partilhar a cultura, de forma generosa e gratuita, na perseverança de iniciativas que ainda não registam um grande números de pessoas, é um serviço ao homem e uma exigência de fé, tal como o demonstrou S. Martinho que agasalhou o pobre com metade da sua capa militar. Esta capacidade de usar instrumentos bélicos para um objectivo humanitário só se pode, segundo opiniões divulgadas, gerar na fantasia da caridade. Novos concertos e projectos Previstos estão já novos concertos do Dr. Joaquim Santos, cuja criatividade artística não esgota. No próximo mês, na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma, terá lugar a estreia do Concerto para violoncelo e orquestra dedicado ao italiano Simonpietro Cussino. Em Janeiro, também em Roma, serão executados quatro Poemas indianos para vários instrumentos, Servite Domino in laetitia para piano e Capriccio para violino e piano. Para a África do Sul, voou recentemente o Concerto para dois pianos e orquestra dedicados aos pianistas Miguel Magalhães e Nina Shumann, um Magnificat para solista, coro, orquestra e órgão que foi terminado em Agosto passado, além de outras obras inéditas e projectos em curso de grande fôlego que este afamado compositor Cabeceirense projecta aquém e além fronteiras."

Artigo Publicado no Ecos de Basto no dia 15 de Novembro de 2007 - Paulo de Almeida

domingo, 9 de novembro de 2008

Prologus | Ana Telles | Recital de Piano


Teatro Ribeiro Conceição - Lamego

TER. 18 Novembro, 22h00


Ana Telles, piano solo



Concerto Comentado

Programa:

J. S. Bach - F.Busoni, Dois corais-prelúdios
F. Liszt, "Predicação de S. Francisco às aves"
J. Santos, "Prologus"
O. Messiaen, "Première communion de la Vierge" e "Noël", dos "Vingt regards sur l'Enfant Jésus"

Duração aprox.: 60 minutos Preço A : 5€ a 24€ Todos os Públicos
http://www.cm-lamego.pt/

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Canção Popular de Encomendação das Almas: "Pecador Adormecido"

Mês de Novembro, mês dedicado às almas...assim o pede a Igreja Católica Romana...
"O Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos-os-Santos.

Desde o século II, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos." (wikipédia)

Na sequência do misticismo que a morte exerce sobre nós, procuramos, ao longo de séculos, responder e perceber este tema que é tão delicado para qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. Perante a perda de alguém querido somos invadidos por questões que parecem não ter qualquer resposta.

Número de publicação único neste blog, é este que acontece hoje. Para quem conhece minimamente o conteúdo do presente blog, sabe que o Maestro Joaquim dos Santos teve um enorme fascínio pela canção popular. Neste mês dedicado aos nossos mortos publica-se uma melodia popular recolhida pelo Maestro. Melodia de encomendação das almas que aplicou em algumas das suas composições para orquestra e voz. Nunca a transcreveu para coro mas deixou o trabalho harmónico realizado nestas obras orquestrais. A seu pedido, fiz uma transcrição, não tive oportunidade de lha mostrar… Dentro das minhas limitações, espero ter conseguido realizar o trabalho com rigor e correcção. Segue-se a partitura “Pecador Adormecido”, canção recolhida em Moimenta (Cabeceiras de Basto).
Até ao minuto 1.16 a orquestra toca precisamente o tema acima escrito em partitura. Melodia e harmonização. A obra em questão é o oratório Travessia, mais precisamente o último Quadro “Bênçãos”, e a gravação foi realizada pela Orchestra Sinfonica Tiberina dirigida por Massimo Scapin; Inês Villadelprat, soprano; Fernando Guimarães, tenor, Coral de Chaves.
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terça-feira, 28 de outubro de 2008

para ouvir..."Espadeladas" - violino, viola d'arco e harpa

interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco), Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

Depois de Debaixo da Oliveira, O Ratinho mal criado e Ó Tia Aninhas segue a canção Espadeladas... Termina assim a publicação das Quatro Canções Populares Portuguesas para violino, viola d'arco e harpa. Também esta bela melodia foi alvo de arranjos para coro...belíssimos arranjos...

"Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003".

A canção popular portuguesa é assim...belíssima!

Para ouvir da mesma colecção:

O ratinho malcriado; Debaixo da oliveira; O tia Aninhas

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Travessia, o Oratório | Concerto 22 de Outubro de 2006

capa dos programas de concerto do oratório Travessia
(Diocese de Vila Real 2006)

Há precisamente dois anos, na Sé Catedral de Vila Real, teve lugar a primeira apresentação integral de um Oratório, único e singular, quer na forma, quer na abordagem do Texto, um Oratório que evoca as gentes e terras de Trás-os-Montes e Alto Douro, um Oratório que conta e canta a história de um Povo, um Oratório que anuncia o futuro desse mesmo Povo, um Oratório dedicado às gentes simples e desconhecidas desse pedaço de terra que é Trás-os-Montes… Com texto do Bispo de Vila Real – D. Joaquim Gonçalves, esta obra de um fôlego que não está ao alcance de quem se ilude com uma escrita musical aparentemente acessível, esta obra de interpretação extremamente complexa, esta obra de um lirismo arrebatador apenas podia brotar da sensibilidade, sabedoria e maturidade de um colossal e extremamente humilde Ser Humano como este que conheci e conheço – Joaquim dos Santos…
«…gosto muito de todas as minhas obras, desde as maiores às mais pequeninas. Numas e noutras me encontro, algo de mim próprio ali está… Aquela que poderá constituir uma espécie de auto-retrato mais perfeito e acabado (…) será o oratório Travessia, para 2 solistas, coro e orquestra, com o texto do Senhor Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves. (…) Será, pois, a obra que mais me revela e onde o ouvinte poderá encontrar a majestade e a grandeza aliadas à simplicidade e candura, o inesperado, os contrastes, o trágico e o lírico, num clima de contínua novidade, na sua duração de cerca de três horas…» Foi desta forma que Joaquim dos Santos respondeu quando lhe perguntaram
«Qual é a sua obra que considera encerrar mais energia, maior capacidade, um possível auto-retrato? E porquê?».

Na altura em que Joaquim dos Santos deu esta entrevista [publicada no Diário do Minho a 01.08.2007 e no presente blog a 06.08.2008] tinham-se feito 7 concertos da Travessia no Distrito de Vila Real, no entanto, em nenhum deles se tinha feito a apresentação da obra completa.

Reservar-se-ia a apresentação integral da obra para a noite de 22 de Outubro de 2006, no concerto realizado na Sé Catedral de Vila Real.

Quem assistiu a esse concerto, não obstante o facto de haver ainda pouca consistência na interpretação de várias passagens, pôde confirmar as palavras do compositor… Sim, a Travessia é uma obra grandiosa, onde o ouvinte encontra «a majestade e a grandeza aliadas à simplicidade e candura, o inesperado, os contrastes, o trágico e o lírico, num clima de contínua novidade», não pelo tamanho (embora seja extensa), mas pela forma como as ideias musicais foram entrelaçadas. Citando o Dr. João Duque, digo que Joaquim dos Santos «em obras coesas, perfeitamente unitárias e completas, consegue um estilo que acolhe, sem preconceitos nem discriminações, os contributos de diversas fases da história da música. Desde o gregoriano aos nossos dias, sem a falsidade da mera citação, mas também sem estéreis subjugações a escolas ou estilos rígidos. De forma singelamente pessoal e única, deixando para trás academismos de todo o género, antecipou e prossegue, numa coerência rara, uma espécie de "pós-modernidade" musical, muito para além de qualquer modernidade forçada ou de qualquer classicismo anacrónico. É, pelo contrário, a simplicidade do seu pensamento musical que determina os recursos a utilizar, resultando disso obras claramente contemporâneas e, simultaneamente, naturais, evidentes, por isso acessíveis ao público com um mínimo de sensibilidade musical.»

Cada ideia musical da Travessia serviu para dar maior realce ao texto, de uma forma quase descritiva; se, porventura, alguém tivesse a ousadia de apresentar a obra suprimindo-lhe o texto, apenas com a melodia respeitante a cada parte vocal, o ouvinte que conhece bem a região podia identificar cada uma das “tribos” (zonas pastorais) da diocese, através das sonoridades que dão corpo às secções musicais que as representam. Com a publicação de hoje apenas se pretende recordar esta grandiosa obra que merece ser estudada a fundo e evocar o segundo aniversário da primeira execução integral da mesma. Foram intérpretes a soprano Inês Villadelprat, o tenor Fernando Guimarães, o Coral de Chaves e a Orquestra do Norte, sendo a direcção musical da responsabilidade do maestro José Ferreira Lobo.

Dia que fica registado na memória, pelos mais belos motivos...

interior da Sé de Vila Real

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

"Novas da Grande Música" (3) | 30.09.2006

Continuando a divulgação da rubrica "Novas da Grande Música", é publicado outro artigo neste blog. Relembro que estes artigos foram publicados desde 2005 pelo Ecos de Basto – Jornal Regionalista trissemanal – escritos pelo Professor Paulo de Almeida. A recolha destes artigos locais continuará a ser divulgada no presente blog...

"Eis-nos aqui de novo para vos dar a conhecer as Novas da Grande Música. Com efeito, no ano do septuagésimo aniversário do nosso estimado e grande amigo Joaquim Gonçalves dos Santos, o Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, pela mão do Reverendo Monsenhor Agostinho da Costa Borges, lançou, homenageando o compositor, uma colectânea de quatro CDs em que houve o cuidado de seleccionar obras representativas da sua produção e que são um reconhecimento da sua actividade musical.
Nestes CDs ressaltam algumas formas fundamentais: obras de música sacra, obras para solo instrumental, obras de música de câmara e obras sinfónico-concertantes. No entanto, e perante esta variedade formal, há uma linha condutora, há um “estilo”, uma maneira de pensar e escrever os sons que define a personalidade musical do compositor; quem ouve a música de Joaquim Gonçalves dos Santos já se apercebe dessa maneira de pensar, dessa forma de estar musical, desse “estilo”.
Mas, poder-se-á perguntar, quais são essas obras? Pois bem... Relativamente à Música Sacra temos a Cantata a Santo António dos Portugueses para barítono (Ellore Nova), coro misto (coro SAPOR) e orquestra sinfónica (Nova Amadeus) dirigidos por Anne Randine Overly, a Sinfonia do Silêncio que foi executada pelo barítono Carlos de Miranda, pelo violinista Renato Riccardo Bonaccini e pelo organista Giampaolo Di Rosa e Lamentationes Jeremiae Prophetae, cantata para barítono, coro misto e orquestra sinfónica; também a Via Crucis e Juxta Crucem, estas duas para orquestra de sopros e voz recitante. Ainda, e pelo grupo vocal «Ançãble» sob a direcção de Pedro de Miranda, Crucem tuam, Christus factus est e Nasceu o Sol da Páscoa.
No que diz respeito à música de câmara temos uma grande variedade de peças em que nos é mostrado o quão versátil é este grande compositor contemporâneo e nosso conterrâneo. Temos peças para clarinete e piano (Impressões e Concerto), para dois clarinetes (Scherzetto), outras para violino, viola e harpa (Quatro Canções Populares Portuguesas e Homenagem a Petrassi), uma outra para duas violas e três violoncelos (Fiore de Lino), etc. Mas também aparecem os mais inesperados complexos instrumentais com por exemplo marimba e órgão (Pequena Fantasia), marimba e piano (Diálogo) e bandolim, bandocelo e piano (Capriccio).
Relativamente a géneros mais formais e assumidos no género sinfónico temos o Concerto para Piano e Orquestra com Ana Telles Antunes no piano e a Orquestra Sinfónica Nova Amadeus dirigidos por Jean-Sébastian Béreau, o Concerto para Violino e Orquestra com um jovem promissor violinista de Guimarães -Emanuel Salvador e a Orquestra Sinfónica Nova Amadeus desta feita sob a direcção de Massimo Scapin e a sinfonia Roma Eterna em que a orquestra referida nas linhas anteriores seguiu a batuta de Ovidiu dan Chirila. Ainda temos que referir a peça Prologus – 6 impressões musicais do Evangelho de S. João (interpretada por Rosa Villar Cordova) em que o piano, como instrumento solista, nos mostra todas as suas potencialidades.
No entanto a discografia de J. dos Santos não se esgota nesta colectânea de quatro CDs; há outras peças já editadas, que porventura irão ser agrupadas numa outra colectânea, como por exemplo a cantata para soprano, coro misto e orquestra sinfónica A Noiva do Marão, algumas canções populares harmonizadas para três vozes mistas pelo «Grupo Coral –Flor do Linho», obras para Órgão executadas por Giampaolo Di Rosa organista italiano e actualmente professor na Escola das Artes (Universidade Católica) do Porto e ainda outras para flauta e piano e canto e piano."

Paulo Almeida

Páginas singelas duma importância singular que nos ajudam a perceber o Joaquim dos Santos que se toca nos locais remotos do nosso país; páginas que nos apresentam o Joaquim dos Santos que constantemente "viajava" de terra em terra e voltava à "sua" cidade de Roma para aí também ver, ouvir e sentir a execução das suas obras, desde a mais simples e natural à mais grandiosa e complexa das suas criações.

O tema "Cantabo Domino in Vita mea" foi anteriormente abordado neste blog, é possível consultar o artigo no arquivo "...o passado sempre actual..." no mês de Agosto 2008.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

para ouvir... "Ó tia Aninhas" - violino, viola e harpa


interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco), Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

Eis o terceiro tesouro musical da colectânea Quatro Canções Populares Portuguesas. Aqui no blog, já é possível ouvir "Debaixo da Oliveira", "O ratinho malcriado" e agora "Ó tia Aninhas". Nunca é demais repetir que esta canção, tal como as anteriores aqui publicadas, foi alvo de vários arranjos realizados pelo Maestro Joaquim dos Santos...

A nota introdutória que acompanha a partitura das Quatro Canções Populares Portuguesas... "Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003".

Como não podia deixar de ser...o meu comentário pessoal: Não desfazendo dos ímpares vultos que deram a conhecer este grande património guardado há séculos por um povo de trabalho e suor, nem sequer se tenta uma comparação, fica aqui registada a ideia que nem só do insigne Fernando Lopes-Graça viveu e vive a Canção Popular Portuguesa...

Para ouvir da mesma colecção:

O ratinho malcriado; Espadeladas; Debaixo da Oliveira

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

"Novas da Grande Música" (2) | 15.06.2006

No seguimento do que se tinha dito anteriormente, continua a publicação dos artigos "Novas da Grande Música" - rubrica publicada desde 2005 pelo Ecos de Basto – Jornal Regionalista trissemanal – que tem a assinatura do caro Professor Paulo de Almeida.

Foi com este aliciante título que se publicaram vários artigos sobre algumas das actividades do nosso Maestro e da sua Música.

"Novamente aqui estamos para darmos a conhecer as Novas da Grande Música. Desde Dezembro (de 2005) até à presente data o mundo ficou mais rico pois os sons que o povoaram e que nasceram numa povoação do nosso concelho (Moimenta-Cavês) pela mão de Joaquim dos Santos para isso contribuíram. Ora vejamos então quais foram os sons que povoaram este nosso mundo!...
A 7 de Dezembro na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma a Orquestra Sinfónica Tiberina e o Coro Feminino da igreja atrás referida, sob a orientação do Maestro Massimo Scapin no «Concerto dell’Immacolata» executaram “Carmen Fatimale” e “Arma Virosque” obras de J. dos Santos. A primeira obra referida tem texto de Amadeu Torres e foi estreada em Fátima por ocasião da comemoração dos 80 anos das aparições. Para a segunda obra o texto foi retirado da Proposição dos Lusíadas de Luís Vaz de Camões. Em Fevereiro, no dia 23, na Capela da Universidade Católica em Braga, por ocasião do “III Ciclo de Música Coral –CATHOLICANTUS” aconteceu um concerto para Órgão e Barítono em homenagem ao nosso respeitoso J. dos Santos. O barítono José Carlos de Miranda e o organista Giampaolo Di Rosa presentearam os assistentes com “4 Poemas para Barítono e Órgão” (poemas de Castro Gil, Porto Soares e J. Silva Lima); também, para Órgão Ibérico, foi executada a peça “Preludio, Ricercare e Corale”. Além destas obras de J. dos Santos foram executadas duas Árias (da Paixão segundo S. Mateus) de J. S. Bach. No final ainda houve lugar para uma improvisação organística sobre o tema litúrgico “Tomai, Senhor, e Recebei” de J. dos Santos.
Em finais de Março, mais precisamente a 31, no «Concerto di Quaresima» (novamente em Roma) foram executadas pela Orquestra Sinfónica Tiberina e pelo Coro de Santo António dos Portugueses sob a direcção de José Ferreira Lobo as obras “Via Crucis” e “Juxta Crucem” para Voz Recitante e Orquestra de Sopros. De referir que o texto lido antes de cada estação da Via Crucis são meditações escritas pelo Cardeal Joseph Ratzinger. Ambas as peças foram recitadas por Rosario Tronnolone da Rádio Vaticano e neste concerto estiveram presentes o senhor Embaixador de Portugal junto da Santa Sé assim como o senhor Reitor da Universidade Católica Portuguesa .Já no mês de Abril e por ocasião do “VIII Ciclo de Concertos de Páscoa” promovido pela Câmara Municipal de Guimarães teve lugar na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira no dia 8, pela Orquestra de Sopros da Academia Valentim Moreira de Sá sob a orientação de Vítor Matos, a Prece para Voz Recitante e Orquestra de Sopros «Juxta Crucem» recitada por Domingos Salvador que também anunciou as 14 estações da «Via Crucis» que, para melhor ilustrar os sons emanados da orquestra, teve projecção de diapositivos alusivos a cada estação.No mesmo mês, mas desta feita no dia 22 e de novo na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma e cujo reitor, o Monsenhor Agostinho Borges oriundo de uma aldeia de concelho de Vila Pouca de Aguiar e que tem dado um grande impulso à música que se faz em Portugal (dados oficiais de uma empresa da especialidade italiana indicaram recentemente que a “Chiesa Di Sant’ Antonio Dei Portoghesi In Roma” é o terceiro pólo musical romano) aconteceu outro concerto com músicos portugueses (ou que se deslocaram de Portugal a Itália propositadamente para este evento): Vítor Matos e Domingos Castro –Clarinetes, João Paulo Teixeira –Piano, Luís Ribeiro –Saxofone e Yakov Marr –Violino. Foram executadas peças de Mozart, Chauson, Messiaen, Yakov Marr e, de J. dos Santos, as peças: - "Sonata da Chiesa” para Piano e Saxofone Barítono, - "Meditação", peça escrita para a Acção de Graças da missa pela eleição do Papa em 17 de Abril de 2005 presidida em Roma na Igreja de Santo António pelo Cardeal D. José Policarpo e – "Invenzione Concertata" e “Rondó” para 5 instrumentos. Ainda em Abril, no dia 26, mas na Igreja Paroquial de Joane, Giampaolo Di Rosa proporcionou aos presentes um «Recital de Órgão» em que foram executadas obras de Bach, Mozart, Liszt, do próprio Giampaolo e uma improvisação sobre o tema do Hino de Joane da autoria de J. dos Santos.
No dia seguinte, 27 de Abril, integrado no já referido «III Ciclo de Música Coral –CATHOLICANTUS» o grupo vocal Ançable (de Ançã – Coimbra) e o organista Giampaolo Di Rosa executaram um concerto de homenagem a J. dos Santos em que ressaltaram duas vertentes do nosso ilustre compositor: -”J. dos Santos sobre os poetas portugueses” em que os textos de Vasco A. Gonçalves, J. da Silva Lima, Miguel Torga e Mário Garcia ganharam asas com os sons para eles escritos e – "J. dos Santos e a liturgia” em que foram executados cânticos editados pela Nova Revista de Música Sacra e que são cantados em muitas das nossas igrejas; sobre um deles, «Onde há Caridade Verdadeira», foi feita uma improvisação ao órgão. Também foram cantados “Dois Motetos sobre a Paixão”. Em Maio a Academia Valentim Moreira de Sá, sediada em Guimarães, organizou uma série de quatro concertos que tiveram lugar em Guimarães, Caldas das Taipas e Brito. No último concerto, que aconteceu no dia 14 no Centro Cultural Vila-Flor mais uma obra de J. dos Santos foi executada, o “Concerto para Violoncelo e Orquestra de Sopros”. Em primeira audição absoluta o jovem Valter Freitas fez soar o seu violoncelo tendo mostrado aos presentes as suas qualidades como instrumentista assim como a beleza e o atrevimento musical da composição assinada pelo nosso amigo J. dos Santos. Volvidos oito dias, a 22 do mesmo mês de Maio no Teatro de Vila Real, estreou-se mais uma obra musical. Desta feita uma oratória para Soprano, Tenor, Orquestra Clássica e Coro. Na oratória “Travessia” foram-nos apresentados pelos solistas Inês Villadelprat, Rui Taveira, a Orquestra do Norte e o Coral de Chaves sob a direcção de Manuel Teixeira três quadros: -1º “A Distribuição das Tribos”, -2º “As Tentações do Deserto” e 3º “Os Frutos da Terra Prometida”. Um quarto quadro constituirá um novo concerto. Dos libretos distribuídos foram retiradas as linhas que se transcrevem a seguir: [Esta peça, a “Travessia” faz a evocação cristã de Trás-os-Montes e Alto Douro, sobretudo da área diocesana de Vila Real, e, em segundo plano, chama a atenção para alguns problemas da sociedade actual. No texto da Abertura e do 1º e 3º Quadros é mais notória a referência geográfica a Trás-os-Montes; no 2º e 4º Quadros acentua-se o comentário social em clave transmontana. Tem subjacente o esquema do livro do «Êxodo» - a saída dos antigos Hebreus do Egipto e a viagem pelo deserto até Canaã ou Terra Prometida – um recurso muito utilizado na literatura cristã e mesmo na literatura e cinema profanos para falar dos grandes movimentos sociais. Construíram-se quatro quadros de harmonia com o nosso objectivo: Distribuição das tribos, Tentações do deserto, Frutos da terra prometida, Despedida de Moisés e passagem do Jordão.] Ainda no dia 4 de Junho em Vagos, numa iniciativa da Universidade de Aveiro, foi apresentada uma peça para Marimba e Órgão, “Fantasia”, cuja estreia aconteceu em Aprília, arredores de Roma e também já executada na cidade de Roma e em Espanha." Paulo Almeida

Páginas singelas duma importância singular que nos ajudam a perceber o Joaquim dos Santos que se toca nos locais remotos do nosso país; páginas que nos apresentam o Joaquim dos Santos que constantemente "viajava" de terra em terra e voltava à "sua" cidade de Roma para aí também ver, ouvir e sentir a execução das suas obras, desde a mais simples e natural à mais grandiosa e complexa das suas criações.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

"Novas da Grande Música" (1) | 30.11.2005

Foi com este aliciante título que se publicaram vários artigos sobre algumas das actividades do nosso Maestro e da sua Música.
“Novas da Grande Música” é uma rubrica publicada desde 2005 pelo Ecos de Basto – Jornal Regionalista trissemanal – que tem a assinatura do caro Professor Paulo de Almeida.
Páginas singelas duma importância singular que nos ajudam a perceber o Joaquim dos Santos que se toca nos locais remotos do nosso país; páginas que nos apresentam o Joaquim dos Santos que constantemente "viajava" de terra em terra e voltava à "sua" cidade de Roma para aí também ver, ouvir e sentir a execução das suas obras, desde a mais simples e natural à mais grandiosa e complexa das suas criações.

Todos os artigos “Novas da Grande Música” serão gradual e aleatoriamente publicados neste blog. Com a sua publicação abre-se mais uma janela na divulgação da actividade musical de Joaquim dos Santos, e dá-se a oportunidade de conhecer a música que foi realizada um pouco por todo o lado e nos locais mais desconhecidos…

Páginas de uma escrita objectiva e singela... pela mão do nosso Professor Paulo de Almeida.

Começamos, então, pelo artigo editado na imprensa regional de Basto no dia 30 de Novembro de 2005…

“Teve lugar na Igreja de S. Martinho no Arco de Baúlhe no passado dia 19 de Novembro um concerto musical pelo Coro do Convívio e Ensemble de Sopros da Academia de Música Valentim Moreira de Sá (Guimarães). Do programa constava o Stabat Mater de J. dos Santos e o Glória de A. Vivaldi com instrumentação de J. dos Santos.Relativamente à primeira obra, Stabat Mater, as notas/sons provindos dos instrumentos acentuavam e davam cor e luz e sentido às palavras cantadas pelo coro e pela excelente solista – Margarida Salvador-; e como foi sentido e apreciado por todos aqueles que enchiam a igreja todo o drama vivido pela Mãe Dolorosa que, junto à cruz, contemplava Seu Filho que dela pendia! A segunda peça (uma excelente obra do grande compositor que todos conhecem por ter composto as Quatro Estações) também maravilhou todos os presentes e a instrumentação (de J. dos Santos para instrumentos de sopro) estava soberba com os clarinetes a fazer toda a linha melódica dos violinos no original. Um parêntesis para um efusivo aplauso aos clarinetistas pela excelente execução desta obra que era extremamente exigente. As solistas Ângela Alves –soprano- e Janete Costa Ruiz –contralto- assim como o Coro do Convívio também estiveram perfeitos tendo transmitindo a todos os presentes, sob a orientação de Vítor Hugo Ferreira de Matos, toda a força e excelência da peça.Tiveram também lugar outras execuções musicais com obras do nosso grande Dr. J. dos Santos. Assim, a 28 de Agosto realizou-se em Cerva /Concelho de Ribeira de Pena) um Encontro de Coros para a comemoração das Bodas de Prata do Grupo Coral «Flor do Linho» que nasceu com o objectivo de preservar e divulgar as canções populares locais e relacionadas com o trabalho do campo especialmente as que têm a ver com a cultura do linho. O grupo cujas canções populares são transcritas e harmonizadas exclusivamente por J. dos Santos nasceu pela mão deste e do Sr. Padre Joaquim Costa, pároco de Cerva. A 18 de Setembro, em S. João de Airão ocorreu uma celebração eucarística em que todas as composições eram de J. dos Santos e de seu mestre Manuel Faria.No dia 25 de Setembro ocorreu a inauguração do Órgão de Tubos de Joane (Famalicão) onde foram executados vários trabalhos do grande compositor nosso conterrâneo e que temos referido nestas linhas. No dia seguinte (26 de Setembro) e integrado nas Festas de S. Miguel de Refojos foi apresentado um programa musical no auditório municipal Ilídio dos Santos denominado “As viagens de 4 canções populares” em que quatro canções, cantadas pelo grupo coral «Flor do Linho» e recolhidas e harmonizadas por J. dos Santos eram apresentadas ao público de três formas distintas: a) audição da voz original da recolha, b) audição a 3 vozes mistas pelo Coro e c) audição em versão instrumental para Flauta e Piano.Mas o trabalho musical do compositor cabeceirense (J. dos Santos) não pára pois a 8 de Outubro do presente ano concluiu, para a comemoração dos 25 anos da ordenação episcopal de D. Joaquim Gonçalves –bispo de Vila Real-, uma obra com o título “Travessia”. Esta composição, um Oratório para Coro, Solistas e Orquestra com texto do próprio D. Joaquim descreve a viagem do Povo Hebreu do Egipto para a terra prometida e o poema, que não poderia ter sonhado outra música cuja partitura tem quase 630 páginas, é uma projecção do texto do livro do Êxodo na sua extensão e no seu carácter, feito de longos e dolorosos desertos, de nevoeiros, de esperanças e sonhos.Também estão em curso outros trabalhos para diversos concertos em Roma. Depois dos realizados em Abril e Junho vem agora o de 7 de Dezembro com duas obras: Cármen Fatimale –Poema de Fátima (Ode, em puro Latim Clássico escrito por Castro Gil) que celebra a vinda a Portugal do Papa João Paulo II como peregrino de Fátima para Coro Feminino e Orquestra. Esta peça musical teve a sua estreia em Fátima com o Coro e Orquestra do Conservatório de Braga (sob a regência de António Batista), nos 80 anos das aparições.A segunda obra a ser apresentada em Roma será “Vem” cuja estreia ocorreu no Ateneu Comercial do Porto há cerca de 10 anos na versão para Coro e Órgão. Com poema de Ana Plácido (1831-1895) -senhora de espírito culto e escritora brilhante e mulher de Camilo Castelo Branco- este soneto tem agora uma nova versão para Coro Feminino e Orquestra. Resta dizer, para finalizar, que estão já preparadas várias Músicas de Câmara para um concerto na Páscoa de 2006 assim como outras peças Corais Sinfónicas que serão apresentadas/estreadas no próximo mês de Junho.”

Por: Paulo de Almeida

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Missa Solene em Honra de Nossa Senhora de Fátima: Manuel Faria | Joaquim dos Santos

Aproveito o dia dedicado à Música para publicar, aqui no blog, uma obra pela qual o Maestro Joaquim dos Santos sempre teve um especial carinho e admiração...
Discípulo dilecto e Amigo de Manuel Faria, o Maestro, demonstra bem, na sua orquestração, o respeito e conhecimento, único e admirável, que sempre teve em relação à obra do insigne Manuel Faria.
A presente Missa foi composta para Coro e Órgão entre os anos de 1941/45; "escrever uma missa de grandes proporções é a consagração: confirma, por esta forma, o louvor recebido a quando da recepção do mais alto grau do Instituto [de Música Sacra - Roma]" (Francisco Faria, NRMS 27-28; 1983)

"Dos compositores portugueses, (...), foi sem dúvida o contacto com o compositor Manuel Faria que o conduziu [Joaquim dos Santos] a um estilo enquadrado na estética contemporânea da Música Sacra Portuguesa. Tendo em conta a comunhão de Joaquim dos Santos com os princípios criativos do último, dois elementos da Comissão de Música Sacra solicitaram-lhe que fizesse a transcrição para Coro e Orquestra da Missa Solene em Honra de Nossa Senhora de Fátima [de Manuel Faria], inicialmente para coro a 4 vozes mistas e órgão. Este trabalho foi executado por Joaquim dos Santos sob grande tensão emocional, uma vez que o compositor acompanhava simultaneamente o seu pai que se encontrava doente. A estreia desta obra teve lugar na Igreja de São Lázaro, em Braga, a 13 de Abril de 1984. A execução esteve a cargo da Orquestra Sinfónica do Porto e do Coro da Sé do Porto, sob a direcção do Maestro Gunter Arglebe." (Tese da Dra. Carla Simões: "Joaquim Santos - Um Compositor no panorama musical português contemporanêo" Departamento de Expressões Artísticas e Educação Física. Instituto de Estudos da Criança. Universidade do Minho. Braga - 2000) 





1. Kyrie
Kyrie, eleison
Christe, eleison
Kyrie, eleison
Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós.

2.Gloria Gloria in excelsis Deo/ et in terra pax hominibus bonæ voluntatis/ Laudamus te, benedicimus te/ Adoramus te, glorificamus te Gratias agimus tibi,/ propter magnam gloriam tuam Domine, Deus, Rex cælestis,/ Deus Pater omnipotens/ Domine Fili unigenite,/ Iesu Christe/ Domine, Deus, Agnus Dei,/ Filius Patris/ Qui tollis peccata mundi,/ Miserere nobis/ Qui tollis peccata mundi,/ Suscipe deprecationem nostram/ Qui sedes ad dexteram Patris,/ Miserere nobis/ Quoniam Tu solus Sanctus/ Tu solus Dominus/ Tu solus Altissimus/ Iesu Christe,/ Cum Sancto Spiritu/ In gloria Dei Patris/ Amen.
Glória a Deus nas alturas E paz na terra aos homens De boa vontade. Nós Vos louvamos, nós Vos bendizemos, Nós Vos adoramos, nós Vos glorificamos, Nós Vos damos graças Por Vossa imensa glória Senhor, Deus, Rei dos céus, Deus-Pai Todo Poderoso, Senhor Filho de Deus unigénito Jesus Cristo Senhor, Deus, Cordeiro de Deus Filho do Homem Que tira o pecado do mundo, Tende piedade de nós, Vós que tirais o pecado do mundo, Acolhei a nossa suplica, Vós que estais à direita do Pai, Tende piedade de nós Porque só Vós sois o santo, Só Vós sois o Senhor, Só Vós o Altíssimo Jesus Cristo, Com o Espírito Santo Na glória de Deus-Pai. Amen.
3.Credo
Credo in unum Deum
Patrem omnipotentem, Factorem cæli et terræ, visibilium omnium et invisibilium/ Et in unum Dominum, Iesum Christum,Filium Dei unigenitum/ Et ex Patre natum, ante omnia sæcula/ Deum de Deo, lumen de lumine,/ Deum verum de Deo vero/ Genitum, non Factum, consubstatialem Patri: Per quem omnia facta suntQui propter nos homines,/ Et propter nostram salutem,/ Descendit de cælis/ Et incarnatus est de Spiritu Sancto,/ Ex Maria Virgine: et homo factus est/ Crucifixus etiam pro nobis: Sub Pontio Pilato, Passus et sepultus est Et resurrexit tertia die, Secundum Scripturas/ Et ascendit in cælum: Sedet ad dexteram Patris /Et iterum venturus est cum gloria,/ Iudicare vivos et mortuos: Cuius non erit finis/ Et in Spiritum Sanctum,/ Dominum et vivificantem: Qui ex Patre Filioque procedit/ Qui cum Patre et Filio, Simul adoratur, et conglorificatur: Qui locutus est per Prophetas/ Et unam, sanctam, catholicam, Et apostolicam Ecclesiam Confiteor unum baptisma, In remissionem peccatorum/ Et exspecto resurrectionem mortuorum/ Et vitam venturi sæculi. Amen.
Creio em um só Deus
Pai Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra, De tudo o que é visível e invisível, E no Senhor Jesus CristoFilho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai: Por quem tudo foi feito E que, por nós, homens, Para nossa salvação Desceu dos céus E encarnou pelo poder do Espírito Santo, Nascendo da Virgem Maria: e fez-se homem. Crucificado também por nós: Sob ordem de Pôncio Pilatos, Padeceu e foi sepultado. E ressuscitou ao terceiro dia Conforme as escrituras. E subiu aos céus Onde está sentado à direita do Pai. Voltará novamente com glória, Para julgar os vivos e os mortos, E o seu Reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida. Que provém do Pai e do Filho E com o Pai e o Filho É adorado e gloficado: Ele que falou pelos profetas. Creio numa única, santa, católica E apostólica Igreja Confesso único baptismo, Para remissão dos pecados. Espero pela ressurreição dos mortos E a vida no mundo que há-de vir. Amen.

4.Sanctus
Sanctus, Sanctus, Sanctus
Dominus, Deus Sabaoth/
Pleni sunt cæli et terra gloria tua/ Hosanna, in excelsis. Santo, Santo, Santo
Senhor Deus do Universo/ O Céu e a Terra proclamam a Vossa glória. Hossana nas alturas.
5.Benedictus Benedictus qui venit
In nomine Domini/Hosanna in excelsis Deo
Bendito O que vem
Em nome do Senhor/ Hossana nas alturas.
6.Agnus Dei
Agnus Dei
Qui tollis peccata mundi/ miserere nobis/ Agnus Dei/ Qui tollis peccata mundi/ Dona nobis pacem.
Cordeiro de Deus
que tirais o pecado do mundo/ Tende piedade de nós/ Cordeiro de Deus/ que tirais o pecado do mundo/ Dai-nos a paz.

A presente gravação foi realizada a 7 de Junho de 2003 ao vivo na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma. Interpretação do Coro SAPOR, Orquestra "Nova Amadeus" e direcção de Ovidiu Dan Chirila.
CD200306
Ver na agenda IPSAR

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

para ouvir... "O ratinho malcriado" - violino, viola e harpa

interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco), Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

O ratinho malcriado é outra das várias canções populares recolhidas e trabalhadas por Joaquim dos Santos (cerca de meia centena). Esta canção, tal como a anterior publicada no blog, sofreu vários arranjos, estando a presente versão, também, incluída na colectânea Quatro Canções Populares Portuguesas para violino, viola e harpa (2003).

Mais uma vez se publica a nota introdutória da colectânea das canções populares... "Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003".

Não desfazendo dos ímpares vultos que deram a conhecer este grande património, nem sequer se tenta uma comparação, fica aqui registada, outra vez, a ideia que nem só do insigne Fernando Lopes-Graça viveu e vive a Canção Popular Portuguesa...

Para ouvir da mesma colecção:

Debaixo da Oliveira; Espadeladas; O tia Aninhas

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dr. Joaquim dos Santos: a música no coração...

O Dr. Joaquim Gonçalves dos Santos é quase um ilustre desconhecido em Cabeceiras de Basto, não obstante as suas múltiplas actividades e ser um mestre, um expoente nacional em composição musical, canto gregoriano e ‘mais umas coisitas’.
Nasceu em Vilela, freguesia de Riodouro, a 13 de Abril de 1936, segundo filho do casal, o pai da Casa da Casinha de Moimenta – Cavês e a mãe da Casa do Torno, de Vilela.
Desde os cinco, seis meses, viveu em Moimenta, onde criou as suas raízes, onde frequentou a escola primária, recordando ainda as suas professoras e nomeadamente a da quarta classe, a D. Aninhas de Rabiçais – Moimenta (D. Ana Barroso de Carvalho). Concluído o ensino primário fez a admissão ao Seminário de Braga, onde ingressou em 1950 e aí permaneceu até 1962, ‘sem perder nenhum ano’ e abraçar a vida sacerdotal.
Da escola primária recorda com emoção as diferenças sociais existentes, já que, ‘sendo filho de lavradores, vivia bem para essa altura’. Recorda ainda o dia em que andando ‘à bulha, junto ao cruzeiro (muito bonito), com um colega, zombei dele’ e tendo-o magoado ficou ‘cheio de pena, nem sequer imaginam, porque ele era pobre e eu se calhar era rico…’
A paixão pela música começou em pequenino. O pai, seguindo o exemplo, também de seu pai, que tocava flauta na Banda Cabeceirense, dedicava-se à harmónica e à guitarra e cantava um ‘solidó qualquer, um fadozinho, e eu e a minha irmã ficávamos a ouvi-lo. A música entrava em nós…, era linda…, linda!...’
Aquando da primeira comunhão, que recorda com ‘saudade e carinho’, ouviu pela primeira vez um organista com atenção. Era uma ‘harmonia tão linda, tão linda: «Meu Deus eu creio, adoro e amo-vos!»
Porém, a sua vocação musical só terá verdadeiro sentido quando entrou para o Seminário e pela mão do grande compositor e músico, o Dr. Manuel Faria, iniciou uma carreira cheia de êxitos e de recordações.
Dele disse o Dr. Manuel Faria: ‘Aquele rapaz tem caco!’
Assim o demonstrou ao longo da sua vida.
Escolheu a vida eclesiástica. Teve as suas dúvidas, ‘não haverá ninguém que não tenha dúvidas, mas fiz a minha opção’.
Foi ordenado sacerdote na Sé de Braga, em 15 de Agosto de 1962 e, ao contrário do que é habitual, celebrou Missa Nova em Fátima.
A Missa Nova ‘é uma festa muito grande, com muitos convidados, com muitas prendas, mas não quis assim. Tinha a obrigação de fazer qualquer coisa de diferente. Sem nada disso. Tinha de agradecer a Nossa Senhora de Fátima que me marcou intensamente’.
Mais, o que é e fez deve ‘absolutamente tudo ao Seminário e aos excelentes professores’ que teve.
Depois de ordenado, ingressou no Seminário de Santiago, em Braga, como professor de música, tendo no ano seguinte, ido para Roma, o marco da sua vida, por indicação do seu mestre Dr. Manuel Faria, para se doutorar em música.
Foram seis anos inesquecíveis. ‘Não se passa um dia da minha vida que eu não recorde o tempo que lá passei.’
Aí se doutorou em composição musical, em canto gregoriano e ‘mais umas coisitas’. Sempre com a sua simplicidade, o seu entusiasmo, o seu estudo e trabalho, levaram-no a frequentar o Conservatório de Santa Cecília, em Roma, que é o melhor do mundo, e até obteve um prémio num concurso alemão.
Um dos grandes marcos da sua estadia em Roma foi ter o privilégio de conhecer pessoalmente o compositor Igor Stravinsky, primeiro num concerto na ‘Igreja linda de Santa Maria Sopra Minerva, no centro velhinho de Roma’ e mais tarde, conjuntamente com o Papa Paulo VI, tendo-lhe então oferecido um livro seu e feito uma dedicatória.
Regressado a Portugal, continuou a sua missão de professor, no Colégio S. Miguel de Refojos e na Escola Preparatória, hoje Escola EB 2.3 de Cabeceiras.
Sente-se ‘realizado ao tratar com crianças, embora seja um pouco antigo na forma de ensinar, mas actualizado no ensino da música’. Lamenta, porém, a falta ‘de muitas coisas, não corre tudo como gostaríamos. As crianças têm muitos vícios, têm grande dependência das coisas da televisão, coisas sem sentido’.
Aqui, o Dr. Santos refere que gosta de ‘toda a música, da música boa, da que tem qualidade’. Porém, ‘há tanta música que não é música nenhuma…, mas nenhuma é uma massinha. Não é mais nada. Barulho…só ruído’…
Paralelamente às actividades docentes, o Dr. Santos dedicou-se ainda ao Grupo de S. Miguel, à Banda Cabeceirense e ao seu Grupo Coral, para além da composição e dos concertos que tem escrito e realizado um pouco por todo o lado.
Lamenta, com a sua simplicidade, ‘não consigo calar nem disfarçar’, não poder tocar mais, mas ‘falta dinheiro e poderes, para haver concertos mais vezes, já que um concerto custa muito dinheiro e empenho’.
Do Grupo Coral ficou uma cassete gravada e a recordação dos muitos concertos e actuações realizadas. Da Banda, onde entrou ‘pela mão do Sr. Jaiminho da Freira’, refere que é ‘uma família com os músicos,… grandes músicos com quem gostei de trabalhar’. Refere ainda o trabalho realizado com o coral da Banda, a partir de um grupo de ‘meia dúzia a cantar e a tocar nas missas’.
Fazendo um balanço da vida, diz: ‘ A vida é feita de tudo. Momentos com muitas palmas e até raminhos de flores, outras com coisas que não foram conseguidas. Se calhar mais baixos que altos.’
A escolha do Dr. Santos, quanto às personagens que o marcaram, não podiam deixar de ser músicos, mas também seus professores: Dr. Manuel Faria, em Portugal e Armando Rensi, em Itália, aquele de que diz: ‘Quem me deu tudo.’
Por fim refere que hoje ‘há facilidade tão grande, tão grande, de ouvir música, basta carregar num botão’. É preciso ‘é ter qualidade’. Mas o mais importante é ‘fazer música por si, num teclado, numas cordas, ser eu que toco’.
Com ‘o botãozinho não tem valor, o mérito e valor está na felicidade muito grande de quem a faz, de quem a vive, de quem a sofre’.
‘A música tem de ser sofrida, ser a própria vida.’
Por isso recomenda que a ‘música seja feita pela nossa juventude’, porque ‘no comércio da música o ganho é para os outros’.
E conclui: ‘Só o que é feito por nós nos dá mais alegria e felicidade’.

Paulo Ramos, Tozé Moura e Mário Leite. Jornal Fórum Cabeceirense, 1 de Julho de 1997

terça-feira, 9 de setembro de 2008

para ouvir... "Debaixo da Oliveira" - violino, viola e harpa




interpretação de Barbara Agostinelli (violino), Paolo Finotti (viola d'arco) e Simonetta Perfetti (harpa). Gravado ao vivo no dia 1 de Fevereiro de 2004 na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma.

Debaixo da Oliveira é uma de várias canções populares recolhidas e trabalhadas por Joaquim dos Santos (cerca de meia centena). Esta canção sofreu vários arranjos, estando a presente versão incluída na colectânea Quatro Canções Populares Portuguesas para violino, viola e harpa (2003). Na habitual nota que acompanha grande parte das suas composições, Joaquim dos Santos, escreveu: "Estas Quatro Canções Populares Portuguesas fazem parte duma colecção de algumas dezenas por mim recolhidas no Minho e Trás-os-Montes, nas décadas de 70 e 80. As quatro, agora apresentadas para [violino, viola e harpa], nascem da sugestão do Monsenhor Agostinho da Costa Borges, Reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, destinando-se a [três] artistas seus amigos que as irão executar. Procurei, mesmo nas pequenas variações ao tema, conservar a simplicidade, a graça, a candura e a alegria que encerram - retrato perfeito da alma do nosso povo. Onde quer que venham a ser tocadas, serão sempre, assim o espero, um eco das nossas vozes, as vozes deste Portugal à beira-mar plantado. Com imenso gosto dedico ao Monsenhor Agostinho Borges estas singelas páginas. Casa da Casinha, 27/05/2003". Antes desta versão, Joaquim dos Santos compôs outra para flauta e harpa.

Não desfazendo dos ímpares vultos que deram a conhecer este grande património guardado há séculos por um povo de trabalho e suor, nem sequer se tenta uma comparação, fica aqui registada a ideia que nem só do insigne Fernando Lopes-Graça viveu e vive a Canção Popular Portuguesa...

Para ouvir da mesma colecção:

O ratinho malcriado; Espadeladas; O tia Aninhas

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Da minha parte muito obrigado II - sinopse do texto e excertos musicais da obra.


Travessia
Oratório em quatro quadros distribuídos por duas partes
2005

Joaquim dos Santos música
D. Joaquim Gonçalves texto

A Travessia é uma evocação cristã de Trás-as-Montes e Alto Douro, mormente da área diocesana de Vila Real, e, simultaneamente, uma reflexão sobre os desafios culturais da sociedade actual.
A primeira ideia deste texto nasceu durante a preparação das Bodas de Diamante da Diocese celebradas em 1997. Ao programar os actos festivos daquela data jubilar, sentiu-­se a necessidade de algo que sublinhasse a relação vital da Diocese com a geografia e a história de Trás-os-Montes e assim ajudasse a compreender que uma Diocese é mais que um centro de administração eclesiástica, é a própria comunidade local em marcha, com os seus encantos naturais, as tradições do seu povo, os problemas e desafios sociais de cada época, tudo assumido pelo Espírito de Cristo numa síntese de vida. Na verdade, a Igreja não passa ao lado do mundo, mas faz suas as alegrias e as tristezas da sociedade humana, sofre as oscilações sociais da mesma comunidade, assume e purifica a cultura local, e é a qualidade desse intercâmbio da fé com a cultura e as estruturas sociais, as expressões artísticas e a liturgia que define o estado de adultez da fé e da Igreja. É por isso se diz que a mesma e única Igreja de Cristo tem em cada diocese a cor do seu povo e forma, no conjunto das dio­ceses, um arco-íris sobre o mundo.
Daquele objectivo nasceu um texto – a Travessia, que faz a evocação de Trás-os-Montes como um “novo Israel em marcha pelos montes”, tendo subjacente o esquema bíblico do Êxodo. A viagem dos antigos Hebreus fez-se através do deserto e, simultaneamente, no íntimo das pessoas, gerando nelas a consciência de Povo de Deus que não tinham ao sair do Egipto. Foi uma viagem exterior e interior, social e religiosa, a caminhada de um Povo em construção. É desse género o percurso de uma diocese: uma comunidade com dimensão interior e exterior, espiritual e com reflexos sociais. De resto, como diz António Quadros, só há viagem por dentro das pessoas, por fora há deslocação.
Da narração do Êxodo extraíram-se quatro quadros capazes de exprimir a nossa história: a distribuição das tribos, onde vão desenhadas as mini-regiões locais e alguns traços da sua identidade cultural; as tentações do deserto ou a evocação das mudanças sociais e passagem da vida rural para a nova sensibilidade urbana; os frutos da terra prometida, um apontamento sobre as belezas e os recursos naturais; e, finalmente, a despedida de Moisés e a passagem do Jordão, ou seja, os desafios lançados pela cultura tecnicista e secularizante do novo milénio.
O texto primitivo da Travessia tinha a forma de um simples auto e destinava-se a ser recitado em actividades juvenis no ano de 1997, mas a escassez de tempo não permitiu a sua utilização pastoral. A passagem do milénio e a “Carta do Papa aos Artistas” na Páscoa de 1999, a lembrar que a pastoral deve tentar as expressões artísticas porque a beleza é o rosto atraente da verdade, aconselharam a remodelação do texto primitivo, dando-lhe uma nova feição destinada a outro público. Mantém o nome e o plano ao estimado compositor e a alegria por ver o “Reino Maravilhoso” transfigurado, a cantar.
(…)

A Travessia transmontana vem a fazer-se há séculos, englobando geografia, economia, cultura e religião. O “Egipto” donde partimos é a austeridade do clima e a limitação dos recursos naturais da nossa terra. Mas esta terra é também a “terra prometida” na medida em que é aqui que temos de vencer.
Esta Travessia transmontana é símbolo de outras travessias sociais e culturais, sempre subjacentes ao texto

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A distribuição das Tribos
1º quadro

A nossa "Distribuição das tribos" aparece logo no início da viagem como lugar de partida e de chegada, um facto da natureza e uma missão histórica. As “tribos” correspondem às actuais oito zonas pastorais da Diocese acrescidas do Seminário e fazem memória da multiplicidade dos vários povos que desde há séculos viveram dispersos por estes montes. Lembram-se “os velhos castras, povos e vezeiras” e os nomes de alguns povos pré-romanos “a quem foram dados montes e ribeiras”, briosamente assumidos como um “testa­mento” e “dote” das origens.
Os nomes de alguns desses povos estão gravados numa coluna encontrada no rio Tâmega, em Chaves, e guardada no respectivo museu, conhecida como «Padrão dos povos». Ci­tam-se aqui os Equaesi e os Turodi, que terão vivido desde o Gerês (dos dois lados da actual fronteira) até Vila Pouca de Aguiar; os Tamagani, nas margens do Tâmega (em terra es­panhola ainda hoje há os topónimos “tamagos” e “tamaguelos”); e os Calecci, desde o litoral, ou ao menos desde o rio Ave, até ao Marão.
Alude-se também à posterior romanização de Trás-os-Montes, de que há muitos sinais, nomeadamente em Chaves, em Jales e no lugar de Panoias. Na reorganização romana do território o rio Douro foi limite norte da Lusitânia. Na época medieval, a antiga “terra de Panóias” era um centro adminis­trativo muito vasto, estendendo-se desde o Marão até ao Tua.
Dos velhos cultos pagãos praticados em Trás-os-Montes há referências ao javali (berrões), a reva (deus das trovoadas), a deuses orientais (no santuário pagão de Panoias) e a serpentes (pitões) no castro da paróquia de S. Tomé do Castelo, em S. Miguel da Pena e noutros lugares.
A fé cristã chegou muito cedo a estas terras, como atestam a diocese histórica de Aquae Flaviae ou Chaves com o seu único bispo Idácio, no séc.V. A Diocese de Vila Real só foi criada em 1922. Nessa data, o actual território diocesano estava distribuído pelas dioceses de Braga, Lamego e Bragança. Embora já fosse um distrito civil, ainda não constituía uma igreja diocesana, “não era um Povo”. Desde 1922 tem a uni-lo o vínculo diocesano e tomou-se um “novo Israel em marcha pelos montes”. Todo o passado é assumido pelo presente, rumo ao futuro.

As tentações do deserto
2º quadro

O quadro das “Tentações do deserto” alude à mudança gradual dos costumes em Trás-os-Montes e em toda a Sociedade actual, a passagem da vida rural para o estilo de vida urbana, a “descida do monte às terras de Moab”. Essa mudança social constitui uma grande prova civilizacional e provoca em muita gente um doloroso lamento entre a austeridade e pacatez do passado, simbolizado no rio Nilo, e o medo do futuro, expresso no rio Jordão.Mas a tentação mais subtil da actualidade vem da nova cultura, a idolatria de um progresso reduzido à economia e á vida no mundo e desinteressado dos valores eternos: “acabe a paz do Sinai”, “passaram as codornizes, a fome e sede e maná”, “dançai, ó povos, dançai”, “depois, depois se verá”. Nessa perspectiva, “Despe-se do futuro o Povo da Promessa”, o sonho da Terra prometida, e “Morrem no presente o sonho e a Travessia”. O sonho “além Jordão” cede ao mundo “aquém Jordão”, às “terras de Moab”, um mundo sem transcendência, tema que será retomado no IV quadro.

Os frutos da terra prometida
3º quadro

Este quadro dos «Frutos da Terra prometida» é uma síntese das riquezas e belezas naturais de Trás-os-Montes e Alto Douro, desde Montalegre ao rio Douro, tema que se prolongará no IV quadro.
Faz-se também uma alusão à cultura literária e científica e artística de vários filhos do Douro e Trás-os-Montes, referindo discretamente dois autores desta região, já falecidos: Miguel Torga, de quem se transcrevem algumas expressões por ele criadas para caracterizar a terra transmontana ou «Reino Maravilhoso» (in Portugal), e João de Araújo Correia, referindo o título de um livro – “Montes pintados” –, alusivo ao Douro.

Despedida de Moisés e passagem do Jordão
4º quadro (2ª parte)

Este é o quadro síntese de toda a Travessia, o mais longo. A "Despedida de Moisés e a Passagem do rio Jordão", acto central na história do Êxodo, são o pretexto para falar da nova cultura e da inserção na Comunidade Europeia, entendidas por muitos como a súmula de todos os bens, mas, na verdade, carregada de interrogações acerca dos valores da vida humana, da família e da sociedade!
Após a passagem bíblica do Jordão e a entrada na Terra prometida tudo parecia ser fácil e foi, afinal, uma "nova travessia". A cultura da modernidade e a globalização criaram uma nova terra de Canaã, onde toda a sociedade faz uma nova travessia, sofre novas tentações e requer novos profetas que a advirtam com novas maldições e bênçãos.

Maldições:
Apresentam-se como novas tentações a instabilidade da família natural, a quebra do diálogo no seio da família e a sedução da vida nocturna, as várias ameaças à vida humana, a anarquia e desvios da sexualidade, o abandono das terras e a emigração forçada “havendo mais terra para ver que para semear”, o isolamento das regiões do interior, a fuga de capitais, a internacionalização do comércio com invasão de produtos estrangeiros e afastamento dos produtos locais, as carências sociais mormente na área da saúde, a quebra da natalidade, a droga e a exploração económica, a alteração dos hábitos alimentares, a urbanização especulativa e sem critérios humanos e artísticos, a perda da memória cristã e a presença das seitas e movimentos esotéricos.

Bênçãos:
Em contrapartida, afirmam-se como novas bênçãos o despertar da consciência da cidadania e interesse pelo bem comum, a vocação dos leigos nas escolas, na arte, nos hospitais e sectores de turismo, a importância da formação escolar, a chegada das novas estradas, a sensibilidade à ecologia e mesmo ao carácter icónico da natureza, a maturidade dos emigrantes, a frugalidade do povo e o sentido do essencial, a consciência do valor da vida, a estima pelo património da arte cristã (citam-se oito títulos marianos de outros tantos santuários), a luz da fé como clarificadora do passado e do futuro e a força da família na transmissão desses valores: “Haveis de transmitir este encanto aos filhos dos vossos filhos”.

Conclusão
É fácil de compreender que toda a vida, pessoal e social, se pode verter nesse esquema cultural: a vida é uma longa travessia do berço até à eternidade ou Terra Prometida que está sempre para além de qualquer Jordão; o Egipto e o faraó são o símbolo das limitações naturais e do mal radical donde é preciso sair continuamente; o rio Nilo é o símbolo da “fartura dos escravos” ou vida sem dignidade; o deserto é o espaço da liberdade, o lugar e o tempo da aprendizagem do exercício da responsabilidade; as tentações do deserto são todos os esquemas de vida e pensamento que afastam da viagem, quer refugiando-se no passado (a saudade das «cebolas do Egipto»), quer instalando-se no comodismo e prazeres do mundo presente, a planície de um mundo sem transcendência (“ficar em Moab”, “aquém Jordão”, “deixar morrer no presente o sonho do futuro”); baal é o símbolo típico da sensualidade pagã e da economia absolutizada; “passar além Jordão” é o salto permanente em ordem à realização do projecto divino da pessoa e da comunidade.
A Travessia, pela linguagem fortemente simbólica, per­mite uma leitura da vida da Diocese e dos dinamismos so­ciais. Haja em vista a referência às pontes para a união das tribos e à estrada "real " para Jerusalém: quando se escreveu o texto original elas figuravam como uma bênção do futuro, e já aí estão concretizadas na A 7 e A24 e melhoria do IP4.
Para uma leitura mais reflectida fazem-se algumas cita­ções bíblicas no texto, acrescidas de algumas outras, mor­mente das “maldições” e “bênçãos”, e que podem constituir um frutuoso exercício cultural.

D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real

Os excertos dos registos sonoros, aqui apresentados, foram realizados no concerto de Vila Real, no dia 22 de Outubro de 2006 e no concerto de Roma, no dia 30 de Abril de 2007. Foram intérpretes a soprano Inês Villadelprat e o tenor Fernando Guimarães, o Coral de Chaves sob a direcção do Maestro Fernando Silva de Matos, a Orquestra do Norte sob a direcção do Maestro José Ferreira Lobo e a Orchestra Tiberina sob a direcção de Massimo Scapin. Registos sonoros efectuados pelo Seminário de Vila Real (em Portugal) e o Engenheiro de som Antonio Cenciarelli (em Itália)