sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Fantasia Conventual de novo em concerto…

Amanhã, às 18h, no Mosteiro de Tibães será “reposta” a Fantasia Conventual

Uma obra que nunca ouvi, nem terei o privilégio de a ouvir ao vivo neste sábado… mas se tudo correr bem, uma gravação “caseira” está a ser providenciada…

Entretanto tive vontade de olhar para a partitura com um olhar diferente e deste olhar resultou uma leitura transversal que aponta mais características do plano formal e da orquestração do que do plano harmónico e temático. Este último necessita de muita mais dedicação da minha parte!

A Fantasia Conventual é uma obra constituída por duas secções predominantes – 1. Prelúdio e 2. Meditação - sendo a última dominada pelos temas gregorianos "Parce Domine" e "Rorate Caeli", que aqui são explorados e contrapostas com um novo elemento temático que, por sua vez, é apresentado sob a forma de um expressivo e marcante Coral.

A primeira secção do Prelúdio - Poco andante e grazioso - é dominada pelos timbres das madeiras que pontualmente se vêem projectados pelos sforzzato nos metais. O papel da percussão é praticamente transversal a toda esta primeira secção. A sua maior evidência é alcançada em Meno Mosso ed espressivo que figura no centro deste Prelúdio e é aqui que, pela primeira vez, se ouve um tutti orquestral do qual ressalta uma pequena secção dedicada em exclusivo a estes instrumentos até agora utilizados como pontos de apoio a ideias que vão fervilhando na partitura. Passado este momento, os fagotes assumem uma importância quase "solística" e jogam em imitação uma melodia que é sublinhada por um espressivo cantabile. Este jogo é interrompido bruscamente pelas trompas e trompetes mas daqui surge um elemento novo… O que anteriormente se verificava apenas nos fagotes é agora partilhado pelas flautas que por sua vez apresentam novo material temático e expõem-no como já acontecera aos fagotes no espressivo cantabile. Caminhando para o final da primeira parte, verifica-se um crescendo orquestral, e não apenas dinâmico, feito pelos metais culminando todos num apressado forte conclusivo! Todo este Prelúdio está marcado por dinâmicas forte. A segunda parte da obra é a Meditação e esta contrasta com a primeira logo nas dinâmicas. Se no Prelúdio o âmbito das dinâmicas aborda sonoridades mais fortes, a Meditação entra a contrariar com o pianíssimo dos tímpanos na primeira dezena de compassos. Por contraste, a orquestração da Meditação é mais densa mas esta densidade é contrabalançada pelas dinâmicas suaves. Há um todo que caminha gradualmente, ora nas madeiras, ora apresentado temas nos trombones, até que se chega realmente à primeira apresentação do Coral. Este apenas é tocado pelos metais. Logo de seguida “Parce Domine” entoado pelas madeiras e um coro (ad libitum) fazem o Mosteiro Beneditino abater 200 anos e é aqui que se dá um encontro com as reais funções do Mosteiro e as reais funções da música gregoriana/música sacra. De novo rompe o majestoso Coral, apenas entoado pelos poderosos instrumentos de metal. “Rorate Caeli” surge logo depois, em comunhão com o primeiro e transportando-nos para um Coral revestido de novas texturas orquestrais que por fim encerram a partitura com o único forte escrito desta secção meditativa.

Naturalmente, só ouvindo é que se pode entender mesmo o que a música quer transmitir…por mais análises que se façam, apenas a audição é o objectivo.

Complexo instrumental: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes; 2 trompas; 2 trompetes; 2 trombones; tímpanos; prato suspenso! Coro vozes iguais ad libitum