quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Prologus | Ana Telles | Recital de Piano

Foi ontem, em Lamego, o Recital da Pianista Ana Telles...
Bach, Liszt, Joaquim dos Santos e Messiaen – “Programa exclusivamente composto por obras de compositores cujo sentido da religiosidade foi muito pronunciado.”


O Concerto abriu com o Prelúdio Coral BWV 639, "Ich ruf' zu dir, Herr Jesu Christ", que rapidamente capturou toda a sala; se alguém tinha dúvidas que estava ali para assistir a um belo recital de piano, em três minutos apenas, pode sentir que a música de Bach chegou e prendeu os sentidos de quem ouviu a profunda e bonita interpretação de Ana Telles.

Logo de seguida invadiu-nos o virtuoso Franz Liszt… Quem esperava o virtuosismo de uma Rapsódia Húngara ou de um Estudo Transcendental, como no meu caso, enganou-se! “Predicação de São Francisco às Aves”, obra muito menos conhecida e divulgada, aliás, como grande parte da obra sacra deste compositor (se bem que não se deve confundir esta obra para piano com qualquer outra dita sacra ou litúrgica!). Ana Telles apresentou-nos uma obra que nos mostra a “faceta mística ou religiosa, católica em particular” de Franz Liszt, “faceta essa que o levou, no final da sua vida, a tomar ordens menores”. Desta obra sobressaiu o “canto” dos pássaros que constantemente “chilrearam” na parte mais aguda do piano e ouviram S. Francisco que lhes falou aquando da entrada de um tema mais forte na mão esquerda e na parte mais grave do piano!... Não sei se forço uma ligação mas, no meu entender, o facto da pianista ter um vínculo tão estreito à música do compositor que transpôs para o piano o canto das aves (Messiaen), possibilitou que, através da sua interpretação deste Liszt, tivéssemos uma percepção muito clara da obra em si, da beleza que a Religião e a Natureza dão constantemente à “inspiração” dos Compositores ao longo da História da Música.

Seguiu-se o Prologus… Obra do Maestro Joaquim dos Santos em seis pequenos andamentos “inspirada” no Evangelho de São João, com dedicatória à Pianista Ana Telles. Prólogo que incentivou a minha viagem a Lamego; queira ouvi-la e senti-la ao vivo… Falar da obra que ouvi ontem à noite significa muito mais do que aquilo que consigo colocar em palavras. Para quem o conheceu sabe que ouvir uma obra sua é sentir a alegria e energia que tinha a sua vida, é sentir a sua presença nos sons que brotam de um instrumento...ontem foi o piano, mas podia ser qualquer outro, e nesse outro ouvir-se-ia igualmente a força, vigor, devoção, sensibilidade, inteligência, majestade e mesmo o seu humor muito característico…
Fazendo jus à confiança depositada pelo Maestro, Ana Telles invadiu instantaneamente a sala com os acordes cheios de força e vigor que abrem o Prologus e prosseguiu sempre na exploração dos pormenores que apenas se encontram quando se estuda a partitura a fundo e que à primeira vista parece não figurarem na mesma… Seis andamentos, seis momentos que não consigo descrever, pois cada um evoca o Mestre e Amigo que tanto nos honrou com a sua amizade e dedicação…Joaquim dos Santos…

A terminar…a música de Messiaen! Com certeza que também conquistou quem, porventura, não conhecia a obra deste genial compositor. Sem meias medidas devo confessar que fiquei seduzido e deslumbrado com a interpretação de Ana Telles. Que clareza! Que brilho! Que majestade! “Première communion de la Virge” e “Nöel”, dois andamentos da grande obra para piano “Vingt Regards sur L’Enfant Jésus” maravilharam todos quantos estavam presentes, sem sombra de dúvida.
Assim terminou um óptimo recital na lindíssima cidade de Lamego…que bom!

Um aparte para terminar: expresso aqui a minha total admiração e louvor à programação do Teatro Ribeiro Conceição. Fiquei absolutamente fascinado com o que vi na programação do mesmo. Não é imensa, o local também não permite, mas variada e apostada em levar ao Teatro experiências peculiares. Só de pensar que vai ser apresentada, nesse teatro, uma ópera de João Arroyo que teve imenso sucesso no inicio do século XX, foi traduzida para inglês para ser apresentada, com sucesso, em Inglaterra, foi leva para a Alemanha, com igual sucesso nas récitas, e que de um momento para o outro deixa de ser tocada e fica cerca de 90 anos na gaveta até que neste Teatro da cidade de Lamego aparece na programação...a mim, sinceramente, deixa-me extremamente satisfeito...
Bem-haja.