quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Entrevista com o compositor ou… uma confissão humilde...

“Joaquim dos Santos é um sacerdote da diocese de Braga que tem dedicado a maior parte da sua vida à composição musical, tanto de cariz religioso como profano. O seu prestígio como compositor já ultrapassou há muito as fronteiras nacionais e os aplausos à sua obra chegam de todos os lados. Apesar disso, o Dr. Joaquim dos Santos prefere a simplicidade e a calma da sua casa em Cavez (Cabeceiras de Bastos) para “dialogar” com a arte musical. Uma simplicidade que também deixa transparecer de forma evidente nesta entrevista conduzida pelo Prof. Doutor Luís Esteves.

Comecemos pelo fim… Recentemente, em Roma, foi apresentada em estreia absoluta mundial a obra Le forme dello Spirito, um projecto de diálogo inter-religioso entre as religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Que significa para si esta obra arrojada e inesperada?
Antes de mais, faço questão em dizer que esta obra nasceu sem eu ter pensado sozinho, no sentido de surgir de um desafio lançado por um tenor italiano meu amigo, insistindo para que eu escrevesse algo para ele cantar. Ficou combinado satisfazer-lhe o pedido. Isto em 12 de Junho de 2003… Nesse mesmo dia, ainda em Roma, comecei a obra, após ter visitado a exposição de Arte Sacra do Sul de Portugal a decorrer em Santo António dos Portugueses, onde me foi oferecido o Catálogo dessa mesma Exposição. Aqui encontrei o texto e o próprio título dessa mesma obra: Le forme dello Spirito… Será mesmo um trabalho arrojado e inesperado? Penso que não, nem quanto ao texto, nem quanto à linguagem musical. A obra articula-se em três partes: a primeira com texto de Isaías, a segunda a partir de um texto de S. Paulo e a terceira com um texto do Corão. Na verdade, o arrojo e o inesperado poderiam estar nesta terceira parte. Mas, após o Concílio Vaticano II, esse mesmo texto, que antes poderia ser polémico, insere-se agora, perfeitamente num projecto de diálogo inter-religioso entre religiões monoteístas. É certo que alguém terá encontrado, inicialmente, problemas na junção destes textos (que na verdade, não foi minha), mas finalmente e de bom grado aceitou trabalhar e dar o máximo brilho às Forme dello Spirito.

Esta obra tem alguma relação com o concerto promovido pela RAI em homenagem ao Papa do diálogo Paulo VI, que esteve presente, e aos Padre Conciliares, realizado em Roma a 12 de Junho de 1966?
Penso que sim, no sentido de poder ter sido hipoteticamente uma obra a inserir no programa desse concerto, a que chamaram ecuménico. Na verdade, lá estavam os ortodoxos com Igor Stravinsky, os protestantes com Sibelius, os judeus com Darius Milhand e os católicos com G.F. Malipiero. Nesse mesmo programa, não destoariam Le Forme dello Spirito, como elemento de um projecto de diálogo inter-religioso entre as religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.

Tem escrito obras inspiradas em textos bíblicos, como, por exemplo, Prologus 6 impressões sobre o Evangelho de S. João. Como funciona esta simbiose, este intercâmbio entre o texto literário bíblico e a composição musical?
O texto literário, regra geral, é usado na composição musical como parte integrante da mesma, seja cantado, declamado, etc. pela voz humana. É dele que a música deve nascer, atendendo a determinados princípios, como a acentuação ou fraseado; o contrário é que não: primeiro a música e depois o texto – isso de maneira nenhuma! – tanto na música sacra como na profana. Quando o texto é bíblico ou de carácter religioso, ou não, e usado para criação de música pura (isto é, sem texto a ser executado), virá a constituir uma “fonte de inspiração” para o compositor, na medida em que irradia impressões, reflexos e ideias para a criação musical, sem que esta venha a tornar-se um retrato do mesmo texto literário. Passando pela serenidade e criatividade do artista, capazes de encontrar e acolher as sublimes mensagens que esses textos encerram, e transmiti-las, através do som, levam certamente o carácter pessoal no inesperado, no encantamento e na escrita do próprio compositor.

E ultrapassou as fronteiras das religiões monoteístas musicando poemas de Tagore. Porquê?
Se ultrapassei ou não as fronteiras das religiões monoteístas, os próprios textos, melhor do que eu, o poderão revelar. De qualquer modo, trata-se de Poemas que possuo desde 1968 e que já li e reli muitas vezes. Esperei apenas pela ocasião certa para musicá-los. Em nota à publicação de 4 Poemas Indianos, agora referidos, escrevi: “Foram eles que me apontaram o caminho para, discretamente, acompanhar o sonho, o encantamento, a gratidão e o louvor de Tagore, rumo ao infinito…”. Usei mesmo, nesta composição para soprano solista, clarinete, saxofone e piano, dois temas gregorianos: Veni Sancte Spiritus e Te Deum laudamos, pois parecem sublinhar todo o sentido transcendental de uma “amorosa mensagem de uma remota terra…”.

Como é que alguém que vive e refere sempre na produção das suas obras a Casa da Casinha em Moimenta, Cavez, Cabeceiras de Basto, sugerindo o apego telúrico aos confins do berço, tem um olhar tão universal, católico?
Seria de estranhar que um católico, como eu sou, não fosse realmente universal! A verdade é esta: cada um gosta sempre de estar onde se encontra bem! É este de facto o meu caso. Aqui no meu “convento” há paz, há silêncio, há paisagem a perder de vista: ao fundo, a Senhora da Graças – a Noiva do Marão –; ao lado, mais acima, o Alvão; e mais ainda, no topo da minha aldeia, as lindas e imponentes encostas do Barroso! Lá em baixo, corre o Tâmega rumo ao Douro… aqui trabalho, desde manhã cedo, apegado, naturalmente, à minha Casa da Casinha, fazendo com imenso gosto o que, musicalmente e não só, de mim pretendem e está ao meu alcance. A universalidade do meu olhar, atrás sublinhada, vem certamente de longe, ainda dos tempos de estudante de Roma, já lá vão uns quarenta anos! Dou como exemplo o seguinte: o primeiro trabalho meu, feito em concerto, foi A Corda Tensa que Eu Sou, do nosso poeta Sebastião da Gama (para coro e piano), foi tocado pelo grande amigo Luca Lombardi, ateu. Na casa Ricordi, na secção de discos, o grande especialista, quanto à edição dos mesmos, era também um outro amigo, protestante. Houve sempre entre nós o máximo respeito e uma profunda amizade que ainda hoje perdura. O facto de assinar os meus trabalhos, referenciando a Casa da Casinha, é só por uma questão de respeito e veneração pela sua linda idade: 304 anos!

Tem dado voz (musical) a tantos poetas portugueses e nomeadamente sacerdotes: Jorge Coutinho, Castro Gil, José Lima, Mário Garcia, Vasco Gonçalves, Valdemar Gonçalves, Joaquim Gonçalves, Porto Soares… Como surge esta colaboração?
A minha colaboração com estes poetas surge, salvo raras excepções, da sua própria poesia, que vou lendo e passando à escrita da música aí encontrada. Só gostando muito de uma poesia me sinto profundamente motivado para a composição musical da mesma. Ainda nestes dias, com alguns trabalhos pequenos, mas urgentes, lendo o Sonho de um Castelo de Castro Gil, surgiu-me a ideia de musicar essa bela poesia e nasce então uma Fantasia, para Barítono solista e Orquestra. Em conclusão: estes poetas e muitos outros, portugueses e estrangeiros, antigos e modernos, são pela sua poesia, os verdadeiros inspiradores das minhas composições musicais.

As suas músicas são interpretadas por uma plêiade surpreendente ampla e diversificada de pessoas: Ana Telles, Giampaolo di Rosa, Adriana José, José Carlos de Miranda… Que relação tem com estes intérpretes?
Resumindo em breves palavras: tenho o máximo de respeito e profunda amizade por todos quantos têm realizado os meus trabalhos: directores de orquestra, de coro, cantores, solistas, tanto nacionais como estrangeiros. Posso mesmo afirmar que já somos uma grande família de óptimos amigos.

Qual é a sua obra que considera encerrar mais energia, maior capacidade, um possível auto-retrato? E porquê?
Devo dizer-lhe, e isto não espantará ninguém, que gosto muito de todas as minhas obras, desde as maiores às mais pequeninas. Numas e noutras me encontro, algo de mim próprio ali está… Aquela que poderá constituir uma espécie de auto-retrato mais perfeito e acabado, como referiu, será o oratório Travessia, para 2 solistas, coro e orquestra, com o texto do Senhor Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves. Trata-se de uma composição de grande fôlego, (são 639 páginas de Orquestra distribuídas em 3 volumes), com um argumento muito belo, e servidas, julgo eu, por uma linguagem extremamente actual. De qualquer modo, não posso ser juiz em cauda própria: os ouvintes é que poderão dizê-lo. Aproveito para referir que só no distrito de Vila Real se fizeram sete grandes concertos da Travessia em 2006! No fim de Abril executou-se e gravou-se em Santo António dos Portugueses, em Roma. Será, pois, a obra que mais me revela e onde o ouvinte poderá encontrar a majestade e a grandeza aliadas à simplicidade e candura, o inesperado, os contrastes, o trágico e o lírico, num clima de contínua novidade, na sua duração de cerca de três horas…

Na sua formação de músico e compositor, quem é o compositor ou compositores que mais o influenciaram ou que são e foram a sua referência?
Quem está no início de toda esta minha caminhada no mundo da música é, sem dúvida, o Cónego Dr. Manuel Faria. Sei até que esta minha afirmação não é surpresa para ninguém, o que seria surpresa era se eu me atrevesse a dizer que a sua influência se limitaria a esse arranque inicial! Continua a ser hoje uma presença imprescindível no meio do meu trabalho. Atrevo-me até a dizer que certamente não me regatearia os aplausos, de modo especial pelas suas obras inacabadas (Antífonas, Salmos e Missa em Honra de Nossa Senhora de Fátima) que vieram para às minhas mãos para as concluir ou orquestrar… Digo isto com uma certa mágoa ao lembrar-me que essas Antífonas e Salmos foram publicados sem que houvesse uma nota referente ao discípulo que terminou o trabalho que o Mestre não pôde realizar… Mais recentemente, saiu uma outra notícia sobre a estreia da Missa em honra de Nossa Senhora de Fátima, para Coro e Órgão, na década de quarenta em Roma, acrescentando ter saído agora uma gravação da mesma, (omitindo, e isto é que é grave, que se trata da mesma Missa mas em versão orquestral da minha autoria!...). Acrescento apenas, e faço questão nisso, que estes trabalhos por mim realizados, foram dentro do máximo respeito pelas obras e com todo o carinho e veneração pelo grande Mestre e Amigo. Se alguém pretender ler algo mais nas entrelinhas, que o faça à vontade. Digo ainda que as minhas obras, e felizmente já são bastantes, têm sido executadas muitas vezes e em vários países. Na verdade, os tempos hoje são outros… Perdi-me um pouco neste desabafo, mas seria injusto se não recordasse o meu professor de composição em Roma – Armando Renzi – mais um grande Mestre e um grande Amigo que sempre me acompanha no meu trabalho de cada dia. Também seria imperdoável se não referisse, entre outros, o nome de Igor Stravinsky, de quem me orgulho de ter na minha posse o seu autógrafo na primeira página da sua Sinfonia dos Salmos, junto ao de Darius Milhand, e ainda uma sua fotografia, vergado já com o peso da idade, a beijar (ortodoxo!) a mão de sua Santidade o Papa Paulo VI. Não posso deixar de referir ainda os nomes de Britten, Ravel, Poulenc, Messiaen, Dallapicola, Petrassi e Delenssy, cujas obras sempre me têm fascinado.

Que recordações guarda da sua estadia e formação em Roma?
Antes de mais quero informar que o meu sonho de ir para Roma nasceu já em 1956 (no meu sexto ano), quando iniciei as aulas de Harmonia. Ao terminar o curso (1962) fui colocado no Seminário de S. Tiago [actual Seminário Conciliar de Braga], onde estive um ano. Em Outubro de 1963 segui então para Roma. Não fui escolhido para ir: fui porque pedi ao Senhor Arcebispo D. António Bento Martins Júnior, que me deu o sim e, deste modo, me permitiu realizar este meu sonho. Não foi fácil, pois tive de contar, economicamente, apenas comigo. No primeiro ano consegui um subsídio do Estado italiano e a seguir uma bolsa da Gulbenkian. Que recordações guardo? Naturalmente as melhores e mais belas de toda a minha vida, desde os grandes Mestres aos inesquecíveis concertos realizados nos mais importantes auditórios romanos, a começar pelo de Sta. Cecília, no Olímpico (onde se faziam concertos para a juventude), no Conservatório, em várias Basílicas e noutros locais que seria fastidioso aqui enumerar. Belas recordações também do Teatro de Ópera, onde consegui, a partir do meu 2º ano, bilhetes de convite para os ensaios gerais. Durante a minha estadia de 6 anos na Cidade Eterna, procurei estar sempre ao corrente do que se ia publicando, em partituras ou discos, e fui adquirindo um bom número desse material que sempre considerei e considero muitíssimo precioso para mim.

Estudou, ensinou e trabalhou nos Seminários de Braga. Que conserva dessa experiência na sua produção musical?
Para começar, devo dizer com toda a verdade e justiça: se não tivesse entrado para o Seminário, penso que nunca teria seguido música. Como perfeito e professor, fiz grandes amizades, que muito prezo. De entre amigos, sem citar ninguém, alguns estarão, em parte, na origem desta minha projecção nacional e internacional, como compositor.

É proverbial a sua modéstia, porque não gosta de falar de si nem das suas produções, e aplaude com uma humildade que impressiona, as interpretações e os intérpretes das suas obras. Que relação tem com o fruto do seu trabalho de compositor?
Se aplaudo os intérpretes das minhas obras é só porque me sinto profundamente grato pela sua dedicação, generosidade e aturado trabalho, realizando assim o meu sonho, na maior parte das vezes indo mais além do que eu próprio terei sonhado… O que vou escrevendo e se vai executando constitui para mim o maior prémio que se possa imaginar. Dou-me por inteiramente satisfeito, ainda que, economicamente, me saia bastante caro…

Foi convidado com insistência para dar aulas na Faculdade de Teologia de Braga. Porquê não se dispôs a aceitar?
É verdade; para dar aulas e não só… Pelo mesmo motivo já abordado e por outros, ainda que não interessa especificar, prefiro remeter-me à eloquência do silêncio. A resposta já foi dada no devido tempo e a quem de direito.

Que sentimentos experimenta como compositor de renome internacional e praticamente desconhecido ou ignorado entre os seus, nomeadamente no contexto da Igreja de Braga, de que é membro ilustre?
Digo-lhe, francamente, que não me sinto assim tão mal como parece! Uma boa parte dos meus primeiros trabalhos para coro e orquestra foram-me pedidos pelo bom amigo Maestro António Baptista e estreados em Braga, já lá vão alguns anos. Em Braga ainda, e há pouco tempo executou-se a Via Crucis (em Santa Cruz), a Missa em Honra de Nossa Senhora de Fátima, de M. Faria, por mim orquestrada (na Sé), bem como a Missa em Honra de Nossa Senhora do Sameiro, também de M. Faria, (nas duas versões para orquestra de sopros e orquestra clássica) – arranjo coral e orquestrações minhas. A minha sinfonia Roma Eterna, o Concerto para Violino e Orquestra, Stabat Mater, Concerto para Violoncelo e Orquestra, Concerto para Clarinete e Orquestra, e muitas outras, têm sido tocadas em Guimarães, isto para falar só do Norte do País. Lembro-me que em Fátima se estrearam Carmen Fatimale (texto de Castro Gil, orquestra e coro do Conservatório de Braga com o Maestro António Baptista), e Stabat Mater (orquestra e coro da Artave, Barítono Pedro Teles e Maestro António Soares). Foram-me pedidas, recentemente, várias apresentações, de que destaco o Gloria de Vivaldi e Stabat Mater do nosso polifonista Rodrigues Esteves, as quais foram já várias vezes executadas. Também posso lembrar a tournée do organista Giampaolo di Rosa (que foi de Tui a Lisboa, percorrendo Braga, Porto, Aveiro, Coimbra…) executando várias obras minhas. Mesmo assim, comparando com o que se passa lá fora, especialmente em Itália, no que me diz respeito, há um acentuado contraste, sendo aí bastante maior o número de estreias absolutas de composições minhas, incluindo sempre a gravação em CD das mesmas. Bem gostaria que a frase que por aí anda – “o que é nacional é bom” – se aplicasse também ao mundo da arte musical! Julgo mesmo que isto seria de pleno direito, porque extremamente justo e verdadeiro, pois temos cá óptimos artistas que pecam apenas por ter um cachet bastante inferior aos de fora. Se o elevassem poderiam vir a ser, sabe-se lá, tanto ou mais apreciados do que os seus pares estrangeiros!...

Como reage às situações em que lhe encomendam obras que depois são postas na gaveta do esquecimento?
A minha reacção é de uma certa frustração, mas também de compreensão e respeito. Pois as pessoas mais directamente ligadas à encomenda, que por exemplo me pedem para escrever isto ou aquilo, são ultrapassadas por outras circunstâncias (adversas) que impedem a execução desses trabalhos encomendados. Só tenho pena de ter de tirar esta conclusão: se soubessem o empenho e o trabalho, o esforço e a renúncia, e porque não a generosidade que está em cada criação musical que no dia a dia vai aparecendo, haveria certamente um outro respeito, consideração e apreço, devidos por esse mesmo trabalho que tem um custo considerável em todos os sentidos!...

Qual é a sua impressão sobre o panorama da música litúrgica em Portugal?
Julgo não estar fora da realidade ao dizer, no que respeita à música portuguesa em geral, que temos de tudo: bons compositores, outros menos bons, ainda que estes, na maior parte dos casos, sejam os mais badalados… Quanto a executantes, temo-los muitíssimo bons. Claro que me refiro em exclusivo à música chamada erudita. No respeitante à música litúrgica, quem me dera que parte dela fosse ao menos religiosa! Mas, infelizmente, e por vezes, nem isto parece, desde as banalidades melódicas e literárias aos acompanhamentos ridículos e de mau gosto, incluindo por exemplo, as palmas… Deixem esse barulho e esses ritmos para as aulas de Educação Musical ou para qualquer salão de festas! Isso constitui, sem dúvida, um atrevimento e desrespeito pela dignidade e santidade do lugar e dos próprios actos litúrgicos.

Como consegue produzir obras tão diferentes no seu género no cenário quotidiano da Casa da Casinha em Moimenta? Não sente o impulso de sair para outro mundo, outros países, onde os artistas têm direito de cidadania reconhecida?
A minha resposta vai, naturalmente, nesta pergunta: como poderia eu escrever tantas obras fora do cenário, da paz, serenidade e encanto da minha casa? Nunca senti o impulso nem a necessidade em sair para outro mundo. De resto, e como digo, a prova está dada pelo meu próprio trabalho, e contento-me plenamente, com os meus direitos de cidadania. Se não estivesse onde estou, penso mesmo que tudo seria diferente, e, quem sabe para pior…

Deu aulas de formação musical em Cabeceiras de Basto, dirigiu a Banda de Cabeceiras… Que contributo prestaram estas experiências para a sua produção de compositor?
Estas experiências constituem o maior e mais precioso contributo para o meu trabalho diário de composição musical. Posso afirmar, sinceramente, ao fazer a música em concerto, quer no ensino, quer na banda, recebi as mais belas lições e me enriqueci com extraordinárias experiências, que ainda hoje me ajudam, reforçam e apoiam, de modo especial na minha escrita, para instrumentos de sopro, madeiras e metais. Digo mesmo que me familiarizei com todos eles e os toquei (apenas como amador!), desde as madeiras aos metais e dos tímpanos ao carrilhão. Nessa mesma altura passei um ano a dar aulas de Educação Musical, usando um Saxofone Alto, pois na escola não havia instrumento, nem melódico, nem harmónico. Julgo, portanto, que esta minha experiência terá dado maior credibilidade à minha escrita para esses instrumentos. Por isso (e agora é apenas um desabafo…), em tempos que já lá vão, me custou sentir a desconfiança de alguém dizendo, a propósito da orquestração da Missa em Honra de Nossa Senhora de Fátima de Manuel Faria: “Fulano (eu), habituado com a Banda, vai certamente abafar o Coro com os metais!…” Não lhe parece que devia ser precisamente ao contrário? Conhecendo bem os instrumentos, melhor os poderia usar… E se acontecesse, por hipótese, qualquer falha por parte do orquestrador, para que servem o Maestro da Orquestra e mesmo os executantes profissionais, que são capazes de pôr veludo e pianíssimos onde os diletantes o não conseguem fazer? Que o Maestro dê as suas ordens, é o que por direito se exige! É tudo uma teia complicada, e, por vezes, só o compositor acusado por qualquer coisa menos bem sucedida vem a ser o bombo da festa… Nestas reticências há outras peripécias que não interessa aqui hoje relatar!

Não se sente desamparado pela indiferença dos responsáveis da Igreja e da autarquia?
Francamente, não. Compreendo que nem todos andamos na mesma onda, os interesses poderão até ser contrastantes, mesmo assim tenho sido alvo de atitudes reveladoras de grande apreço e carinho, de uns e de outros, por mim e pela minha música, ao ponto de ter recebido a Medalha de Ouro do meu município [Cabeceiras de Basto].

Como classificaria o estilo da sua produção musical?
Não tenho a menor dúvida de que a minha linguagem musical está actualizada. Isto mesmo é confirmado por vários críticos e especialistas no assunto. Devo confessar que desde os tempos de estudante em Roma me fui documentando através de partituras, gravações, livros e muitos concertos, sobre as grandes novidades a todos os níveis, que na década de sessenta emergiram no mundo da música. Ainda agora vou com frequência procurar e adquirir tudo aquilo que me interessa para o meu trabalho, desde música escrita ou gravada aos métodos de estudo dos vários instrumentos, pois sei que, neste particular, posso escrever com segurança e propriedade, tirando o máximo rendimento de cada instrumento e de cada instrumentista.

É já tempo de lhe prestar uma mais que justa homenagem, nos seus 71 anos de vida e ao seu percurso longo e sobretudo intenso e fecundo de compositor… Como interpretaria uma homenagem que lhe quisessem prestar?
Sem rodeios de falta de humildade quero afirmar que aceitarei (como já o fiz em relação à Universidade Católica e a outros dedicados amigos) tudo aquilo que ponha em realce a minha pessoa, o que faço e o que posso, dentro da igreja, representar. Além disso, pelo facto de estar vivo poderei, pessoal e profundamente, reconhecer e agradecer.”

1 de Agosto de 2007
Diário do Minho
suplemento da edição n.º 27849