quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Travessia, o Oratório | Concerto 22 de Outubro de 2006

capa dos programas de concerto do oratório Travessia
(Diocese de Vila Real 2006)

Há precisamente dois anos, na Sé Catedral de Vila Real, teve lugar a primeira apresentação integral de um Oratório, único e singular, quer na forma, quer na abordagem do Texto, um Oratório que evoca as gentes e terras de Trás-os-Montes e Alto Douro, um Oratório que conta e canta a história de um Povo, um Oratório que anuncia o futuro desse mesmo Povo, um Oratório dedicado às gentes simples e desconhecidas desse pedaço de terra que é Trás-os-Montes… Com texto do Bispo de Vila Real – D. Joaquim Gonçalves, esta obra de um fôlego que não está ao alcance de quem se ilude com uma escrita musical aparentemente acessível, esta obra de interpretação extremamente complexa, esta obra de um lirismo arrebatador apenas podia brotar da sensibilidade, sabedoria e maturidade de um colossal e extremamente humilde Ser Humano como este que conheci e conheço – Joaquim dos Santos…
«…gosto muito de todas as minhas obras, desde as maiores às mais pequeninas. Numas e noutras me encontro, algo de mim próprio ali está… Aquela que poderá constituir uma espécie de auto-retrato mais perfeito e acabado (…) será o oratório Travessia, para 2 solistas, coro e orquestra, com o texto do Senhor Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves. (…) Será, pois, a obra que mais me revela e onde o ouvinte poderá encontrar a majestade e a grandeza aliadas à simplicidade e candura, o inesperado, os contrastes, o trágico e o lírico, num clima de contínua novidade, na sua duração de cerca de três horas…» Foi desta forma que Joaquim dos Santos respondeu quando lhe perguntaram
«Qual é a sua obra que considera encerrar mais energia, maior capacidade, um possível auto-retrato? E porquê?».

Na altura em que Joaquim dos Santos deu esta entrevista [publicada no Diário do Minho a 01.08.2007 e no presente blog a 06.08.2008] tinham-se feito 7 concertos da Travessia no Distrito de Vila Real, no entanto, em nenhum deles se tinha feito a apresentação da obra completa.

Reservar-se-ia a apresentação integral da obra para a noite de 22 de Outubro de 2006, no concerto realizado na Sé Catedral de Vila Real.

Quem assistiu a esse concerto, não obstante o facto de haver ainda pouca consistência na interpretação de várias passagens, pôde confirmar as palavras do compositor… Sim, a Travessia é uma obra grandiosa, onde o ouvinte encontra «a majestade e a grandeza aliadas à simplicidade e candura, o inesperado, os contrastes, o trágico e o lírico, num clima de contínua novidade», não pelo tamanho (embora seja extensa), mas pela forma como as ideias musicais foram entrelaçadas. Citando o Dr. João Duque, digo que Joaquim dos Santos «em obras coesas, perfeitamente unitárias e completas, consegue um estilo que acolhe, sem preconceitos nem discriminações, os contributos de diversas fases da história da música. Desde o gregoriano aos nossos dias, sem a falsidade da mera citação, mas também sem estéreis subjugações a escolas ou estilos rígidos. De forma singelamente pessoal e única, deixando para trás academismos de todo o género, antecipou e prossegue, numa coerência rara, uma espécie de "pós-modernidade" musical, muito para além de qualquer modernidade forçada ou de qualquer classicismo anacrónico. É, pelo contrário, a simplicidade do seu pensamento musical que determina os recursos a utilizar, resultando disso obras claramente contemporâneas e, simultaneamente, naturais, evidentes, por isso acessíveis ao público com um mínimo de sensibilidade musical.»

Cada ideia musical da Travessia serviu para dar maior realce ao texto, de uma forma quase descritiva; se, porventura, alguém tivesse a ousadia de apresentar a obra suprimindo-lhe o texto, apenas com a melodia respeitante a cada parte vocal, o ouvinte que conhece bem a região podia identificar cada uma das “tribos” (zonas pastorais) da diocese, através das sonoridades que dão corpo às secções musicais que as representam. Com a publicação de hoje apenas se pretende recordar esta grandiosa obra que merece ser estudada a fundo e evocar o segundo aniversário da primeira execução integral da mesma. Foram intérpretes a soprano Inês Villadelprat, o tenor Fernando Guimarães, o Coral de Chaves e a Orquestra do Norte, sendo a direcção musical da responsabilidade do maestro José Ferreira Lobo.

Dia que fica registado na memória, pelos mais belos motivos...

interior da Sé de Vila Real